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‘Se eu trabalho sempre fora, com quem deixo minha cria? É que eu sou mãe, mãe na pandemia’: artistas compõem músicas sobre os desafios atuais da maternidade

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Marchinhas, sambas e MPB foram inscritos em festival para mães artistas. Vídeos mostram mulheres cantando ao lado das crianças. Mães e filhos fazem música na pandemia e viralizam nas redes
“Ouço ‘mãe’ o dia inteiro e a louça lá na pia,
É que eu sou mãe,
Mãe na pandemia.
Demitida porque o chefe disse que eu não rendia,
É que eu sou mãe,
Mãe na pandemia.”
Os versos acima foram escritos por Luísa Toller, professora de música, compositora e mãe da Antônia, de 1 ano e 8 meses. Ela reuniu queixas dela mesma e de outras mulheres para compor uma marchinha que mostra o desafio da maternidade durante a pandemia.
“A carga mental se volta para a gente. Não estamos dando conta de todas as jornadas — e ainda nos sentimos eternamente culpadas por isso”, diz.
A marchinha era muito boa para ficar guardada na gaveta depois do cancelamento do Carnaval de 2021. Toller decidiu, então, inscrever a composição no Meu BB Festival, que premiaria os três melhores vídeos de mães cantando com seus filhos. Era uma iniciativa apoiada pela Lei Aldir Blanc (de incentivo aos artistas) e organizada pelas curadoras Míriam Struz e Nanda Piovaneli.
Luisa Toller compôs uma marchinha sobre o desafio de ser mãe na pandemia
Arquivo pessoal
É claro que foi um sucesso: nas redes sociais, a marchinha viralizou; e no concurso, ficou com o 2º lugar no voto do público.
“Acho muito forte ver como as pessoas se identificam com essa música. Isso é ruim, mas que pelo menos vire um grito de socorro, de ‘ei, olha para mim!’.”
No vídeo, Antônia aparece mamando enquanto a mãe canta. “Não foi proposital. Ela estava chateada, eu já tinha dado muita aula [de música, virtualmente]; ela estava com saudade e só gritava e chorava. Então, ela ficou no meu peito, segurando o chocalhinho, e aí o primeiro ‘take’ já valeu”, conta a mãe.
A compositora conta que a pandemia alterou muito a rotina da família. Como trabalhar no computador, enquanto sua bebê quer brincar no teclado e clicar em tudo?
“No começo, ela não andava, aí era mais fácil, ficava sentadinha na cama. Agora é impossível, porque ela quer interagir, mexer em tudo, então é difícil conseguir fazer alguma coisa”, diz Toller. “Já aconteceu de eu estar dando aula, e ela ficar gritando, ou de ela abrir a porta e dar um tchauzinho. Mas não tem jeito, preciso tentar abstrair.”
Veja abaixo o vídeo enviado por Luísa Toller no festival:
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A artista diz que seu marido é participativo, mas não adianta: ainda assim, ela se sente sobrecarregada.
“É uma desigualdade que é muito estrutural. A carga mental fica mais comigo, e isso me deixa bem mais cansada que ele. Não imagino o pai da Antônia tomando algumas iniciativas — eu que preciso delegar. E aí é pediatra, vacina, consulta, casa, faxina, alimentação, contas para pagar. É muita coisa nas costas das mulheres.”
Música campeã: ‘Becos e Vielas’
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No Meu BB Festival, o vídeo campeão (veja o post acima) foi o da sambista Adriana Araújo, de Belo Horizonte, com seu filho Daniel.
Ela escolheu a canção “Becos e Vielas” para exaltar a importância de suas origens na comunidade Pedreira Prado Lopes.
“Independentemente de onde você mora, a gente pode sonhar, lutar, trabalhar. É a mensagem que essa música traz. A sociedade nos julga muito: pelo nosso tom de pele, por onde vivemos. A letra diz que precisamos erguer a cabeça, correr atrás dos nossos sonhos”, diz Araújo.
“Os últimos meses foram difíceis com relação à minha vida profissional, porque parou tudo [nas apresentações de música]. Mas tem um lado positivo: consegui um engajamento maior nas redes sociais e uma aproximação gigantesca com o meu pequeno.”
Daniel ajudou na produção das lives musicais ao longo da pandemia, aprendeu todas as letras e ainda tocou instrumentos. É claro que, quando a apresentação dele e da mãe venceu o festival, foi só alegria.
“Fiquei enlouquecida em casa, começamos a gritar! As outras mães [do concurso] eram maravilhosas, artistas impecáveis”, conta Araújo.
Ela acredita que, apesar de todas as dificuldades da pandemia, conseguiu passar uma mensagem para o seu filho.
“Eu via o Daniel poucas horas na semana, porque ele estudava à tarde, e eu trabalhava à noite. Criamos uma sintonia maior nesses tempos difíceis. A gente conseguiu encontrar fôlego, fé e esperança de que tudo vai melhorar”, diz Araújo.
3º lugar: com criança instrumentista!
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O terceiro lugar do Meu BB Festival (veja o post acima) foi ocupado por Fernanda Cordeiro, trombonista de Curitiba, e pela sua filha Laura, que também toca o instrumento no vídeo de apresentação.
O clipe é uma delícia de assistir: mistura o canto com cenas do dia a dia da dupla. A intenção é falar sobre a crise social durante a pandemia.
“Foi um choque para a família inteira. Do nada, de uma semana para outra, a gente ficou sem trabalho. A Laura tinha começado a ir para a escola, com aquela animação de conhecer colegas, socializar com outras crianças… A gente mora em apartamento, então parece que ficou enjaulada”, conta Cordeiro.
“Claro que foi muito difícil para todo mundo, mas no setor de arte, ligado à música, foi de uma hora para outra. Levou uns dois meses para eu me situar e começar a trabalhar de outra maneira, em casa, fazendo gravações.”
Fernanda Cordeiro diz que se sente sobrecarregada. “Voltei a ficar mais dona de casa por questão de necessidade, porque meu marido acaba trabalhando mais para conseguir uma renda. Antes, era por igual, era tudo dividido.”
No processo de composição e gravação da canção inscrita do concurso, Laura estava sempre ao lado da mãe — e já começou a aprender a letra e a querer participar.
A música do festival mostrou, segundo Fernanda, que “sozinho, ninguém nunca caminha”.

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