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Abril termina com 89% de déficit no volume de chuvas no Sistema Cantareira; seca deixa conta de energia mais cara a partir de maio

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Volume total de água armazenado em todos os mananciais que abastecem a região metropolitana de São Paulo neste sábado (1º) é 9% menor do que em 1º de maio de 2013, ano pré-crise hídrica; especialista aponta possibilidade de nova crise de abastecimento no ano que vem. Além disso, redução de capacidade de geração hidroelétrica faz com que se use mais geração térmica, que tem custo operacional maior e deixa conta de luz mais alta. Estiagem de 2014 fez o Sistema Cantareira viver o seu pior momento na história: alerta sobre o uso consciente da água e respeito a essas fontes de vida
Adriano Rosa
Seis dos sete mananciais que abastecem a região metropolitana de São Paulo tiveram déficit de chuvas no mês de abril, aproximando os reservatórios de água a níveis semelhantes ao período pré-crise hídrica, em 2013.
No Sistema Cantareira, só choveu 10,8% do esperado, um déficit de 89,2%. A falta de chuvas preocupa especialista, que vê possibilidade de nova crise de abastecimento em 2022.
Além de ter chovido pouco, a previsão é de que nos próximos meses, tradicionalmente mais secos, chova ainda menos. Além da possibilidade de faltar água, outra consequência da falta de chuvas é a conta de luz ficar mais cara, pois a redução de capacidade de geração hidroelétrica faz com que se use mais a geração térmica – e esta tem custo operacional maior.
A conta de luz vai ficar mais cara já a partir de maio, de acordo com informe da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) desta sexta-feira (30). A conta de luz terá bandeira vermelha 1, o que significa que será cobrada uma taxa adicional mais alta, de R$ 4,169 para cada 100 kWh.
De acordo com a Aneel, o motivo para o preço maior é que os reservatórios das principais usinas hidrelétricas do país já estão baixos, mesmo ao fim da temporada de chuvas. O cenário, diz a agência, sinaliza um “patamar desfavorável de produção” de eletricidade – quanto menos água guardada, maior a necessidade de acionamento das termelétricas, que são mais caras.
O volume total de água armazenado em todos os mananciais que abastecem a região metropolitana de São Paulo neste sábado (1º) é 9% menor do que em 1º de maio de 2013 e 18% menor do que em 1º de maio de 2020.
Na cidade de São Paulo choveu apenas 64,5% do esperado para todo o mês de abril, de acordo com análise de Pedro Luiz Côrtes, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP).
“Em todo o mês de abril, choveu muito pouco no Sistema Cantareira com apenas 10,8% do esperado. E essa redução de chuvas foi verificada em outros mananciais: Sistema Alto Tietê choveu apenas 45,8%, no Guarapiranga choveu apenas 66,2%. É uma situação mais generalizada e que levou a Aneel a adotar a bandeira vermelha, pois identificou risco hidrológico em outras bacias e sistemas”, explica Côrtes.
O Cantareira abastece, por dia, cerca de 7,5 milhões de pessoas, ou 46% da população da Região Metropolitana de São Paulo, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), órgão que regulamenta o setor. O sistema é formado por sete sistemas: Águas Claras, Atibainha, Cachoeira, Jacareí, Jaguari, e Paiva Castro e São Lourenço.
Além do Cantareira, outros seis sistemas abastecem a Região Metropolitana de São Paulo: Alto Tietê, Guarapiranga, Cotia, Rio Grande, Rio Claro e São Lourenço.
Apenas o sistema Rio Claro teve alta de chuvas em abril. Confira o déficit de chuvas dos mananciais em relação ao esperado para o mês de abril, de acordo com dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp):
Sistema Cantareira: – 89,2%;
Sistema Alto Tietê: – 54,2%;
Guarapiranga: – 33,8%
Cotia: – 27%
Rio Grande: – 36%
Rio Claro: + 28%
São Lourenço: – 30%
Nesta sexta-feira (30) o Sistema Cantareira operava com menor capacidade na comparação com a mesma data do ano passado e com 2013, momento de pré-crise hídrica, de acordo com dados da Sabesp:
2021: 50,8%
2020: 61,8%
2013: 62,8%
A situação atual aponta, portanto, para uma nova crise hídrica no ano que vem, de acordo com Côrtes. O agravante da situação é que a previsão é de redução de chuvas até o final do ano.
“Essa previsão de redução no volume de chuvas se estende ao longo do segundo semestre e indica uma maior probabilidade de um verão mais seco com a possível volta de um La Niña. Na Região Metropolitana de São Paulo, a situação atual não representa riscos para o abastecimento este ano. Entretanto, poderemos ter problemas já em 2022 se houver redução no volume de chuvas no verão, conforme indicam os prognósticos climáticos”, afirma Côrtes.
O La Niña é um fenômeno natural que, ao contrário do El Niño, diminui a temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico tropical central e oriental. Mas, assim como o El Niño, gera uma série de mudanças significativas nos padrões de precipitação e temperatura no planeta.
No Brasil, o La Niña é responsável por levar mais chuva ao Norte e ao Nordeste – em 2021, especificamente, isso deverá ocorrer com intensidade maior no Norte que no Nordeste. Por outro lado, o fenômeno reduz as chuvas na porção Sul do Brasil, e isso pode ter repercussão em São Paulo.
Em nota, a Sabesp informou que não há risco de desabastecimento neste momento na Região Metropolitana de São Paulo, mas reforça a necessidade do uso consciente da água em qualquer época.
De acordo com a Companhia, o sistema de abastecimento é integrado, permitindo transferências rotineiras entre regiões desde a crise hídrica, quando foram feitas obras como a interligação Jaguari-Atibainha (que traz água da bacia do Rio Paraíba do Sul para o Cantareira) e o novo Sistema São Lourenço.
Além das obras e ações, campanhas sobre o uso consciente são veiculadas ao longo do ano.
Nesta sexta-feira (30), o Sistema Integrado opera com 59,1% da capacidade, nível similar, por exemplo, aos 62,1% de 2018, quando não houve problemas. A projeção da Sabesp aponta níveis satisfatórios para passar pela estiagem (maio a setembro), mas, mais uma vez, a Companhia reforça a necessidade de uso consciente.
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