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Estagiária de enfermagem que morreu de Covid um mês de diferença do pai queria viajar com ele: ‘Sei que estão juntos’, diz irmã

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Geraldo Rodrigues, de 65 anos, estava internado havia cerca de um mês e morreu no domingo (25). Filha dele, Natália Barbosa Moraes Rodrigues, de 24 anos, era estagiária de enfermagem e morreu de Covid-19 em 27 de março deste ano. Pai e filha morrem de Covid-19 com um mês de diferença em Sorocaba
Arquivo Pessoal
Fazer uma viagem com o pai neste ano era um dos planos da estagiária de enfermagem Natália Barbosa Moraes Rodrigues, de 24 anos, que morreu de Covid-19 em 27 de março, em Sorocaba (SP). O pai da jovem testou positivo para a doença na mesma época e foi internado, mas não resistiu ao coronavírus e morreu um mês depois.
Geraldo Rodrigues, de 65 anos, foi enterrado no Cemitério de Ibiúna (SP), cidade onde morava e trabalhava como secretário de contabilidade e finanças na Câmara Municipal do município. O Legislativo decretou luto por três dias.
Em entrevista ao G1, a irmã de Natália por parte de mãe, Suelen Barbosa Moraes Rodrigues, de 33 anos, contou que, durante o tratamento, Geraldo sofria de diabetes e tinha problemas nos rins. Ele chegou a ser intubado e passou por traqueostomia.
Suelen é sobrinha de Geraldo, filha do irmão dele. A mãe dela se relacionou com o irmão de Geraldo e teve duas filhas com ele, a Suelen e a Camila. Depois da separação, ela se casou com Geraldo e teve a Natália. Ele também já tinha uma filha de outro casamento.
De acordo com Suelen, a família sempre foi muito unida, mas a conexão que Natália tinha com o pai era surpreendente. Ela sempre se dedicou a cuidar dele e ficou preocupada durante a pandemia por ele fazer parte do grupo de risco.
“Ainda está difícil de cair a ficha. É como se ela tivesse feito uma viagem e fosse já voltar. A gente está se apegando a Deus para poder levar a vida adiante”, explica Suelen.
Pai de estagiária de enfermagem morre de Covid um mês após a filha
Arquivo pessoal
Durante a internação de Geraldo, ele chegou a ser extubado e intubado novamente após o estado de saúde dele se agravar. Na última semana antes do óbito, ele estava internado na enfermaria recebendo cuidados paliativos. Porém, de acordo com Suelen, ele não reagia ao tratamento.
“Ele chegou a ser extubado, ficou um tempo sem a sedação, mas não reagia. Foi feita traqueostomia porque ele estava com muita dificuldade para respirar. Os médicos suspeitavam que ele teve um AVC grave. Ele tinha que fazer uma ressonância, mas não tinha o aparelho e não queriam arriscar a transferência por causa da gravidade em que ele estava.”
A família estava evitando contar ao Geraldo sobre a morte de Natália, para que o estado de saúde dele não fosse agravado. Na última semana os familiares se revezaram no acompanhamento no hospital e decidiram que era o momento de ele saber o que ocorreu com a filha.
“Todos concordaram em contar. Os médicos já tinham falado de ele não voltar mais ao que ele era antes. Quem acabou contando foi minha mãe, foi muito difícil para ela. Ela contou no sábado e ele morreu no domingo.”
Geraldo com a filha Natália, a esposa e o sobrinho em Sorocaba
Arquivo Pessoal
Durante o velório, a família lembrou que Natália havia planejado fazer uma viagem apenas com o pai em abril.
“A minha irmã, Camila, tem uma agência de viagens. A Natália, disse que queria fazer uma viagem em abril só eu e o meu pai. A Camila lembrou disso no velório do meu tio. Eles se encontraram, foram fazer essa viagem juntos. A gente nunca ia imaginar que seria uma viagem dessa. Sei que estão juntos.”
Suelen com as irmãs Natália, Camila e o tio Geraldo
Arquivo Pessoal
Suelen relata que na época em que ambos foram infectados pelo coronavírus, ela, o marido e o filho de três anos também testaram positivo para a doença. Suelen teve Covid-19 durante a gravidez e o bebê deve nascer entre maio e junho.
Segundo ela, todos tiveram sintomas leves e não precisaram de internação. A esposa de Geraldo e o namorado de Natália também foram infectados.
‘Nossa história não acabou’
Natália faria 25 anos nesta quinta-feira (28), de acordo com a família. O aniversário do namorado dela, Aaron Fabrício Pacheco da Silva, de 24 anos, foi celebrado no sábado (24), um dia antes da morte de Geraldo.
De acordo com Suelen, Aaron passou o aniversário no hospital cuidando do sogro. Nesta quinta-feira ele postou uma homenagem à namorada em uma rede social. Leia na íntegra:
“Hoje é seu dia. Você faz 25 anos sim, pois eu e você somos um só eternamente agora. Agradeço a Deus todos os dias por ter colocado você em minha vida, e feito todo esse tempo ao meu lado, os melhores dias e momentos que tive na vida. Eu te amo mais que tudo nesse mundo. Sei que mesmo você longe, a nossa história não acabou e não irá acabar. Sei que Deus quer que fiquemos eternamente juntos. Portanto, parabéns amor da minha vida! Te amarei todos os dias até o final da minha vida. Obrigado por ser essa mulher/anjo maravilhosa. Te encontro lá em cima para passar a eternidade juntos.”
Namorado de estagiária de enfermagem publica homenagem no dia em que ela completaria 25 anos
Reprodução/ Instagram
Estagiária morreu de Covid em março
Natália chegou a receber a primeira dose da vacina contra a Covid-19 no início de março. Uma semana depois, os sintomas da doença começaram a surgir e ela buscou atendimento médico. Na época, foi orientada a cumprir o isolamento em casa. O resultado do teste para a doença sairia em 15 dias.
De acordo com o namorado da jovem, a família decidiu pagar um exame de Covid em uma clínica particular por causa da demora. Veio, então, o resultado positivo, e o estado de saúde de Natália começou a piorar.
A jovem era estagiária de enfermagem no Hospital Estadual Adib Jatene. Ela chegou a ficar intubada durante 12 dias na Unidade Pré-Hospitalar (UPH) Zona Leste e morreu no dia 27 de março. O corpo de Natália foi sepultado no Cemitério de Ibiúna, no mesmo dia.
‘Levem a sério’
Estagiária de enfermagem fez publicações sobre a Covid-19 enquanto estava internada na UPH Zona Leste de Sorocaba
Arquivo pessoal
No período em que esteve internada em tratamento, Natália fez postagens nas redes sociais para alertar sobre a gravidade do coronavírus.
Depois da morte dela, Aaron divulgou nas redes sociais uma publicação feita pela namorada durante o período de internação. Fazendo uso de respiradores, a jovem relatou em texto o medo da intubação e fez um apelo para que as pessoas levassem a doença a sério. Ela escreveu:
“Todos os dias eu rezo e peço para que não me falte ar, que eu não vá para a UTI, que eu não precise ser intubada. Peço todos os dias para que eu consiga respirar sem precisar de suporte. Meus braços já estão doloridos com tanto medicamento sendo administrado e acessos perdidos, exame de gasometria insuportável. Já são 10 dias com essa doença traiçoeira e o desespero me consome. Pessoas morrendo ao meu lado e eu só rezo e peço que eu fique bem. Não peguei indo para rolezinho não, até porque sempre tive noção do quão insuportável era conviver com essa merda. Não é brincadeira, levem a sério. A saúde no Brasil está um caos, por favor, respeitem todo o decreto.”
Estagiária de enfermagem que morreu por Covid postou alerta sobre doença na internet
A jovem também compartilhou uma publicação com a foto de uma vítima da doença recebendo oxigênio no hospital e depois já sem vida.
Quatro dias depois da postagem, a própria Natália foi intubada. A estagiária chegou a sofrer duas paradas cardiorrespiratórias.
Estagiária fez postagens para alertar sobre a gravidade da Covid-19 em Sorocaba
Reprodução/Facebook
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