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Vítima da Covid, enfermeira marcou trajetória de centenas de crianças em ONG de Restinga (SP)

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Por décadas, Edna Maria Gomes coordenou a Casa da Sopa, que oferece alimentação e aulas a jovens em situação de vulnerabilidade social. Com a morte dela, filha passou a tocar o projeto. Edna Maria Gomes, vítima da Covid-19, coordenava há décadas a Casa da Sopa de Restinga (SP)
Elaine Nalini/Acervo pessoal
Uma das 400 mil vítimas da Covid-19, Edna Maria Gomes dedicou a vida a cuidar de quem estava ao seu redor. Trabalhou como enfermeira em hospitais de Franca (SP) e, quando se aposentou, passou a se dedicar integralmente a uma entidade voltada a crianças e adolescentes moradores de periferias em Restinga (SP), cidade a cerca de 400 km da capital paulista.
(Esta história faz parte da série Planos interrompidos, que conta projetos e sonhos de pessoas que morreram vítimas de Covid-19.)
A instituição, batizada de Casa da Sopa, foi criada pelo pai de Edna, em 1949, quando ela tinha 5 anos, para matar a fome de quem não tinha o que comer. Com o tempo, o projeto se expandiu e passou a oferecer aulas de inglês, informática, esportes e dança, no contraturno escolar, para 112 jovens de 5 e 17 anos.
Edna ficou à frente da entidade por décadas. Com a morte dela, o trabalho passou a ser tocado por uma de suas filhas, Elaine Nalini.
“Ela era mãezona de todos. Estava sempre preocupada, querendo ajudar. Às vezes, eu até dizia que ela não podia entrar nos problemas de todo mundo, mas não adiantava, porque o coração dela era muito grande. Ela queria todo mundo bem”, relembra Elaine, que, inspirada no trabalho da mãe, virou assistente social.
Edna Maria Gomes, vítima da Covid-19, ao lado da filha, Elaine, e de criança atendida pela ONG da família, a Casa da Sopa de Restinga (SP)
Elaine Nalini/Acervo pessoal
Edna acordava cedo e, assim que terminava de resolver suas pendências em Franca, onde vivia, pegava o carro e ia direto para a Casa da Sopa, onde passava o restante do dia, especialmente na cozinha, no preparo da alimentação dos jovens atendidos, ou costurando enxovais a partir de tecidos que arrecadava com doações.
“Ela procurava oferecer o que as crianças não tinham em casa, desde coisas básicas, como comida e escova de dente, até presentes de Dia das Crianças e Natal, para elas terem outra opção de vida”, diz Elaine.
Crianças assistidas pela Casa de Sopa de Restinga (SP) em evento antes da pandemia de Covid-19
Elaine Nalini/Acervo pessoal
Após meses de quarentena, afastada da Casa da Sopa, Edna suplicou para que a família a deixasse voltar ao trabalho, e assim o fez, sem sair da cozinha. Para evitar a contaminação pelo vírus, não podia mais ver as crianças que tanto lhe alegravam, mas já estava feliz por poder manter o funcionamento do projeto com as próprias mãos.
“O estado em que ela estava era preocupante. Ela chorava, estava entrando em depressão por não poder ir à Casa da Sopa. Aquilo era a alma dela. Significava tudo para ela em todos os sentidos”, diz Elaine, que, junto com a irmã, permitiu o retorno.
Ainda para manter todos seguros, as aulas foram paralisadas. A alimentação, antes oferecida no refeitório, passou a ser entregue em marmitas na calçada da Casa da Sopa, junto com cestas básicas montadas a partir de doações.
Edna Maria Gomes, vítima da Covid-19, era responsável pela cozinha da Casa da Sopa de Restinga (SP)
Elaine Nalini/Acervo pessoal
A Casa da Sopa, cujo custo operacional gira em torno de R$ 10 mil, é mantida com um bazar e a venda de sacos de lixo. As melhorias na estrutura são feitas a partir de colaborações com projetos como o Criança Esperança, que construiu uma cozinha industrial e uma sala de informática na entidade após uma visita do apresentador Luciano Huck.
“Minha mãe tinha o impulso de pedir doações, mas também comprava o que precisasse com o dinheiro da aposentadoria. Fazia de tudo para que o trabalho continuasse”, relata Elaine. “Ela tinha um problema no joelho que fazia os pés incharem, mas não ficava sentada um minuto. Dizia que a responsabilidade era dela.”
Edna Maria Gomes, vítima da Covid-19, ao lado da filha, Elaine, e do apresentador Luciano Huck em ação do Criança Esperança
Elaine Nalini/Acervo pessoal
Meses depois, no fim de novembro, Edna começou a ter febre e dor de cabeça. Tomou um analgésico e pensou que não havia de ser nada. Com o bazar da Casa da Sopa se aproximando, tinha preocupações maiores, como costurar os panos de prato que seriam vendidos para arrecadar fundos para a entidade.
A contragosto, decidiu atender aos pedidos da família e ficar em casa enquanto se tratava. Mas os sintomas não passaram. A eles, somaram-se a falta de ar e, com ela, veio o diagnóstico positivo para Covid-19, a hospitalização e a intubação. Apesar dos esforços médicos, em 11 de dezembro, Edna não resistiu à doença.
“Voltar à Casa da Sopa após a morte dela foi muito difícil. Muitas famílias não aceitam a morte dela. Ela é muito amada pelas crianças”, diz Elaine. “É muito doloroso quando vejo as coisas novinhas que ela nem chegou a usar, como um forno enorme em que ela planejava fazer bolos para o aniversário das crianças depois da pandemia.”
Edna Maria Gomes, vítima da Covid-19, ao lado da filha, Elaine, na ONG da família, a Casa da Sopa de Restinga (SP)
Elaine Nalini/Acervo pessoal
Aos poucos, Elaine une forças para dar continuidade ao legado de Edna, que, além das crianças da Casa da Sopa, também deixou outra filha, netos e irmãos. Ao ver o Brasil atingir 400 mil vítimas da Covid-19, Elaine diz viver um misto de sentimentos – o luto, ainda longe de ser superado, e a gratidão pelas lições aprendidas em meio às dificuldades.
“A pandemia mostrou que a gente precisa pensar mais no próximo – não só na família, mas em todo mundo que está ao redor”, diz.
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