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Tecnologia e a evolução da observação de aves

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No “Dia do Observador de Aves”, comemorado nesta quarta-feira (28/04), o ornitólogo Luciano Lima conta um pouco do processo que transformou o “passarinhar” em uma das atividades mais praticadas no mundo. Dia do Observador de Aves é comemorado em 28/04.
Terra da Gente
A observação de aves é uma das atividades ao ar livre com maior número de praticantes do mundo. Embora desde os primórdios as pessoas dediquem atenção às aves, a origem da observação de aves como um hobby praticado em larga escala data do início do século XX. Diferentes razões são apontadas com responsáveis pela popularização do ato de passarinhar, uma das principais delas foi o surgimento dos guias de campo.
Guias de campo são livros projetados para auxiliar na identificação de grupos de animais silvestres, plantas ou mesmo rochas e minerais de um determinado país ou região. São compostos por imagens, podendo ser ilustrações ou fotos, acompanhadas dos nomes de cada espécie e por pequenos textos com informações referentes a cada uma delas. No caso dos guias de aves, essa informações incluem, por exemplo, descrições sucintas destacando dicas que ajudem a diferenciar espécies parecidas, distribuição geográfica e habitat preferido. Geralmente possuem tamanho compacto, pois o objetivo do guia é, como o próprio nome diz, auxiliar na identificação em “campo”.
Antes dos guias de campo, identificar aves dependia de comparações com espécimes de museus e com descrições técnicas em livros de ornitologia, métodos praticamente inacessíveis para o público em geral. Assim, ao traduzir em imagens e popularizar o conhecimento antes disponível apenas para os especialistas, o surgimento dos primeiros guias de campo de aves dos EUA e da Europa foi um dos grandes responsáveis pela popularização da observação de aves.
Johan Dalgas Frisch foi pioneiro em gravar os cantos das aves no Brasil.
Terra da Gente
Meu primeiro guia de campo, e até o início dos anos 2000 praticamente o único que existia sobre aves do Brasil, foi a edição de 1981 do livro “Aves Brasileiras” de autoria de Johan Dalgas Frisch. Depois de colecionar infinitos álbuns de figurinhas (a maioria sobre animais), selos e tantas outras coisas, aos 13 anos eu descobri que era possível colecionar passarinhos livres e o meu presente de aniversário de 14 anos foi o “Aves Brasileiras”.
Muito mais que um livro de cabeceira, o “guia do Dalgas” como muitos se referem à obra ainda hoje, virou meu companheiro inseparável de todas as horas, só não levava para o banho pois não podia molhar. De tanto folheá-lo, aos poucos fui guardando na memória os nomes e as imagens das aves que aqui gorjeiam. Conhecimento que era testado e aprimorado nas passarinhadas que fazia de bicicleta praticamente todo o final de semana ou até mesmo no recreio, quando aparecia alguma ave no pátio da escola. E foi em uma dessas passarinhadas de recreio que não apenas meus conhecimentos de observador iniciante, mas o próprio livro foi colocado a prova.
Beija-flor-de-peito-azul pode ser encontrado em vário países da América do Sul.
Anderson Silva/VC no TG
No pátio da minha escola, em Resende, sul do Estado do Rio de Janeiro, encontrei um pequeno beija-flor beijando algumas flores de malvavisco que formavam uma cerca viva. Me dei conta que em intervalos de poucos minutos ele repetia o mesmo roteiro de flor em flor e me posicionei estrategicamente no meio da cerca viva. Não deu outra: consegui observá-lo por alguns segundos a menos de um metro dos meus olhos e fiquei absurdamente maravilhado com seu peito arroxeado cintilante. Chegando em casa, corri para o livro em busca do meu beija-flor misterioso, mas havia um pequeno detalhe que eu ainda não havia percebido. Por algum motivo, aquela edição do “Aves Brasileiras” não incluía a família dos beija-flores! Fiquei desolado. Tinha acabado de observar bem de perto uma espécie fantástica e ela não existia no meu livro onde deveriam existir praticamente todas as aves.
Se fosse hoje, eu poderia consultar algum dos muitos guias de campo que tem saído sobre aves do Brasil nos últimos anos. Neste caso, poderia ser o excelente “Guia das Aves da Mata Atlântica” ou o “Guia das Aves do Sudeste do Brasil”, que juntamente com alguns amigos, eu mesmo ajudei a escrever, ou ainda a nova edição do próprio “Aves Brasileiras”, apenas para citar alguns.
Os guias de aves são importantes ferramentas para auxiliar a identificação das espécies.
Terra da Gente
Navegando na internet, eu poderia buscar no portal WikiAves, a enciclopédia on-line das aves do Brasil, meu beija-flor vendo fotos e mais fotos em altíssima resolução de não apenas todos os beija-flores, mas de praticamente todas as aves que ocorrem em Resende, ou em qualquer lugar do país. Ou poderia procurar no Merlin, um aplicativo gratuito que permite carregar no celular um guia de campo das aves de praticamente qualquer lugar do mundo. Se tivesse conseguido uma foto, eu não precisaria nem procurar, bastaria subir a imagem no WikiAves ou no Merlin que a inteligência artificial disponível em ambas as plataformas identificaria o meu beija-flor com grande chance de acerto. Assim como tudo que a tecnologia encosta, identificar uma espécie de ave tornou-se algo na velocidade de alguns toques na tela ou no teclado.
Mas de volta ao final da década de 1990… Alguns dias depois, caminhando de volta da escola, passei em frente à uma banca de revista e vi um cartão telefônico na vitrine com um lindo desenho de um beija-flor com peito arroxeado. Era ele! Só podia ser ele! Pedi ao vendedor para guardar o cartão e corri para casa para pegar dinheiro da minha mesada. Com o cartão em mãos, descobri no verso que eu tinha observado um beija-flor-de-peito-azul (Amazilia lactea). Mais de vinte anos depois as bancas de revistas são uma espécie ameaçada de extinção, os cartões telefônicos viraram cartões de memória e os orelhões viraram celulares, mas a paixão daquele jovem observador de aves por identificar passarinhos continua a mesma.
Feliz Dia do Observador de Aves! #VaiPassarinhar!
Luciano Lima observa aves do próprio quintal, mas atividade começou quando ainda era criança.
Terra da Gente
Luciano Lima é ornitólogo e faz parte da equipe do TG.

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