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Procurador-geral de Justiça determina que MP investigue Hospital da Brasilândia, na capital, após denúncia de pacientes amarrados

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Profissionais de saúde denunciaram falta de medicamentos sedativos para pacientes intubados em UTI do hospital da Zona Norte da cidade de SP. Em nota, secretaria disse que imobilização pode acontecer por segurança, e que ato não tem ligação com falta de remédios do kit intubação. Médicos denunciam que pacientes são amarrados em hospital da Brasilâdnia para serem sedados
O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Mário Sarrubo, determinou nesta terça-feira (26) que o Ministério Público investigue a denúncia de falta de medicamentos de sedação para pacientes que estão intubados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Municipal da Vila Brasilândia, na Zona Norte da capital paulista.
Conforme revelado pelo SP2 na segunda-feira (26), médicos relataram que estão sendo obrigados a amarrar mãos e pés dos internados.
Em nota, a Secretaria Municipal da Saúde afirmou que não há falta de medicamentos para intubação e que “as imagens obtidas sob a condição de anonimato não comprovam ou justificam falta de remédios utilizados nessas intervenções.”
A pasta disse ainda que “apesar de as imagens não comprovarem erro de conduta”, vai publicar no Diário Oficial a criação de uma comissão para avaliar o atendimento oferecido no Hospital da Brasilândia.
Com 94% dos leitos de UTI ocupados, e novos infectados por Covid-19 que não param de chegar, três médicos do hospital, que pediram para não ser identificados, contaram ao SP2 como tem sido lidar com pacientes nessas condições.
“Está faltando vários insumos. Faltando sedações, faltando luvas, faltando atadura, itens essenciais para o bom tratamento dos pacientes no maior hospital de campanha de Covid do estado de São Paulo”, disse um deles.
De acordo com os funcionários do hospital, só há no estoque remédios necessários para fazer o procedimento de intubação, não para manter os doentes graves sedados e imóveis, evitando o desconforto. O efeito desses medicamentos dura poucos minutos.
Segundo secretário municipal de saúde de SP, jovens estão chegando aos hospitais e sendo intubados em menos de 24 horas
GETTY IMAGE
“A medicação para intubar são medicamentos para induzir. É um hipnótico junto com um bloqueador neuromuscular que você faz a intubação. Depois, passam cinco minutos e esse paciente acorda, depois que está intubado. E aí é o problema! Não tem sedação, não tem analgesia para esse paciente ficar no tubo. Então ele fica acordado no tubo, entendeu? O que pode ocasionar vários problemas. Vários problemas relacionados ao pulmão, que podem levar ao óbito do paciente”, afirmou o médico.
“Pacientes novos, pacientes que estão morrendo por falta de sedação. Não estamos conseguindo fazer o tratamento adequado neste hospital, entendeu?”
Um segundo médico disse se sentir impotente com a situação: “Fico transtornado. É um absurdo. Você vê paciente igual um peixe fora da água abrindo a boca, mordendo o tubo o tempo inteiro, completamente agitado”.
O Hospital Municipal da Brasilândia, na Zona Norte de SP, que trata exclusivamente de pacientes com Covid-19.
Divulgação/PMSP
Sem a sedação adequada, os internados podem ficar com sequelas e até morrer. “A maioria não fica bem. Não tem um desfecho positivo. Isso causa um estímulo doloroso muito grande”, afirma um terceiro médico da unidade.
Ele disse que trabalha em outros hospitais, em que também estão faltando insumos, mas que a situação é pior no da Brasilândia. “Nos outros serviços não falta dessa maneira. Tem uma escassez, tá faltando alguma coisa. Mas não num quadro tão crítico quanto esse aqui. O Iabas não tem uma resposta, não tem nada oficial pra gente.”
O Hospital da Brasilândia é administrado pelo Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas), uma organização social contratada pela Prefeitura de São Paulo. Segundo os médicos, a unidade recebeu os kits de intubação doados por empresários ao Ministério da Saúde, mas eles duraram apenas uma semana.
Cartaz colado na entrada da farmácia do hospital aponta quais medicamentos estão em falta por lá: propofol, midazolam/dormonid, fentanil, remifentanil, clorpromazina, cetamina, rocurônio e cistracúrio.
Cartaz na entrada da farmácia do Hospital da Brasilândia, na Zona Norte da capital, informa quais medicamentos estão em falta
Arquivo pessoal
Confira a íntegra da nota da Prefeitura:
“A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informa que não há falta de medicamentos para intubação, o estoque é considerado regular e que as imagens obtidas sob a condição de anonimato não comprovam ou justificam falta de remédios utilizados nessas intervenções.
Durante esse processo, em alguns casos, o paciente fica agitado e, para que não se machuque, é necessária a imobilização física. Nesses casos, não há qualquer relação com o procedimento de intubação e medicamentos utilizados para tal operação, o chamado “kit intubação”.
O órgão esclarece que durante o processo de extubação – quando são retirados do paciente os medicamentos da intubação – as medicações sedativas são retiradas gradualmente para que o paciente acorde e retome a consciência.
A Pasta tem realizado a compra desses medicamentos para que não falte tratamento adequado, mesmo com as incertezas do mercado e dificuldade por parte das empresas em atender a demanda nacional.
Os estoques dos medicamentos são verificados rotineiramente, caso seja necessário, é possível o remanejamento entre as Unidades de Saúde. Nos últimos dias, o Hospital Municipal da Brasilândia foi abastecido com 800 frascos de Propofol (500 deles provenientes de uma doação de Recife) e 500 frascos de Midazolan.
Apesar de não haver falta de abastecimento e as imagens não comprovarem erro na conduta, ainda assim, para que não existam dúvidas, nesta terça-feira (27) será realizada uma averiguação preliminar por uma comissão formada por médico, enfermeiro e farmacêutica da SMS para avaliar o atendimento oferecido na unidade Hospitalar, referência para o tratamento da Covid-19 na capital”
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