Mulheres fazem transição capilar na pandemia, se libertam de ‘padrão’ e assumem cachos: ‘Não me reconhecia mais’

8 de abril de 2021 0 Por
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Fechamento de salões, de lojas de cosméticos e isolamento social contribuíram para que mulheres interrompessem uso de química no cabelo para voltar ao natural. Tamara fez o processo de transição capilar em meio à pandemia
Arquivo Pessoal
A assistente contábil Tamara Cristine de Souza e Silva, de 32 anos, estava há 15 anos com o cabelo liso, quando decidiu enfrentar a transição capilar e assumir os cachos. A moradora de Praia Grande, no litoral paulista, viu uma oportunidade para começar o processo com o fechamento de comércios na pandemia, sem chance de comprar produtos para alisamento. Para Tamara, se sentir bonita fora do ‘padrão’ imposto por anos foi um processo difícil.
“Foram 15 anos alisando meu cabelo, eu não me reconhecia mais, e não lembrava do cabelo de verdade. Queria saber quem eu sou de verdade, minha identidade real”, descreveu a assistente em entrevista ao G1.
A transição capilar, momento em que a pessoa interrompe o uso de química no cabelo para voltar ao natural, é enfrentado com dificuldades por muitas mulheres, já que o cabelo passa a ficar com duas texturas diferentes, lisa e cacheada. Para Tamara, esse processo foi de autoconhecimento, e passar por ele em meio à pandemia foi uma oportunidade de fazer a transição com mais confiança, sem a necessidade de sair, por conta do isolamento.
Cabelo cortado foi doado para instituição que faz perucas com mechas
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O processo durou cerca de oito meses, e a última química foi aplicada em janeiro de 2020, pouco antes da pandemia. Em março, Tamara iria reaplicar os produtos de alisamento, mas, com o fechamento de lojas de cosméticos, pensou que era a oportunidade para fazer a transição. Ela deixou o cabelo crescer bastante antes de cortar, com o intuito de doar. Em dezembro do mesmo ano, fez o primeiro corte e assumiu completamente os cachos.
Tamara enfrentou a transição sem anunciar, e apareceu posteriormente com os fios já cacheados. Ela conta que algumas pessoas chegaram a comentar que preferiam o cabelo liso, mas explica que os comentários negativos não a afetaram. “Ter meu cabelo de volta me deu um poder. Passei a me aceitar completamente, parece que, com meu cabelo natural, fiquei mais firme e ganhei uma força”, diz.
‘Dependente do salão’
Ilustradora fez transição após anos usando química nos cabelos
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A ilustradora Marina Faria Mendes, de 26 anos, planejava fazer um novo alisamento em março de 2020, momento em que iniciou a quarentena. Com a pandemia, e trabalhando em home office, a moradora de Santos se sentiu confortável para iniciar o processo de voltar ao cabelo natural. Ela, que começou a alisar aos 12 anos, relata que, na época, não se achava bonita com os cachos.
“Eu sempre fui dependente do salão. Eu acho que, nessa época, há cerca de 12 anos, quem tinha cabelo cacheado ia alisar. As pessoas perguntavam quando alisaria, faziam piada. Eu me olhava no espelho e me achava muito feia”, descreve Marina.
Jovem ainda espera cabelo crescer por completo para finalizar a transição
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O fechamento de salões fez com que a jovem passasse cerca de seis meses sem cortar, período em que retirou boa parte do cabelo liso. Marina ainda está em processo de transição, e precisa cortar parte do cabelo que permanece com química. Ela relata que, com variedade de produtos, maiores referências de pessoas com cabelos cacheados e informação, fica mais fácil saber como tratar o cabelo.
Ela reitera que o cabelo natural é mais curvado, e espera que, ao fim da transição, o cabelo volte à curvatura de antes. “[O corte] muda muito a sua percepção de você mesma. Meu cabelo ficou bastante bonito em mim, eu nem lembrava como ele era. Fico feliz que, hoje em dia, as pessoas estejam se aceitando um pouco mais. Quando a gente é mais novinha, isso não é tão fácil”.
‘Surpresa’
A adolescente Luiza Chaves, de 15 anos, definiu como uma “surpresa” ter gostado do cabelo natural. Ainda em transição, ela fez o primeiro corte sozinha, para tirar a parte lisa do cabelo. Faltam cerca de três meses para o cabelo crescer o suficiente para que Luiza faça o corte completo.
Adolescente decidiu fazer a transição capilar e está no meio do processo
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Alisando o cabelo desde a infância, com cerca de 10 anos, a última química foi aplicada no fim de 2019. Com a pandemia, ela ficou sem alisar novamente. Nesse período, tomou a decisão de cortar. Ela explica que o trabalho na finalização é maior, mas o resultado final valeu a pena.
“Comecei a alisar porque achava muito bonito. Minha mãe fazia, e minhas irmãs tinham o cabelo menos cacheados. Cortei e gostei bastante, fiquei surpresa por ter gostado dele natural, e decidi que não quero mais fazer química”, comenta a adolescente.
Transição
A cabeleireira especialista em cabelos naturais Paula Oliveira explica que, com a pandemia, muitas pessoas viram uma oportunidade para deixar os processos químicos e voltar ao cabelo cacheado. “Elas me relatam o fato de estarem em casa, de trabalharem de forma remota, de não terem a necessidade de se arrumar tanto. Elas ficam mais soltas, deixam o cabelo mais natural, e começam a enxergar ele dessa forma’, explica.
Há anos no ramo, Paula conta que, por ser especialista, faz todo um acompanhamento no momento da transição. “Minha preocupação é, justamente, incentivar, encorajá-las a continuar no processo, porque não é fácil, e não é tranquilo para a maioria”, reitera. Ela diz que o acompanhamento passa pelo estímulo ao cabelo natural, e mostra como seguir com o tratamento.
Paula esclarece que o tempo de cada cliente é diferente: há quem espere o cabelo crescer completamente, e quem corte de uma vez. Mas, a decisão é da pessoa, como ela se sentir melhor. A cabeleireira afirma que o importante é que a mulher se sinta confortável para usar os cachos.
A especialista salienta que é importante o acompanhamento de alguém que entenda sobre a transição, para indicar os melhores produtos e a forma de cuidar. Além do isolamento, Paula diz que uma maior quantidade de referências cacheadas ajuda na vontade de fazer a transição. “Elas vêm muito por conta da moda, e o natural, o cabelo cacheado e volumoso, está em evidência. Acredito que isso conta, já que muitas trazem referências e fotos”, finaliza.
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