Jogo de futebol clandestino acaba em acusação de injúria racial no litoral de SP: ‘Seu macaco’

7 de abril de 2021 0 Por
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Namorada de jogador gritou insultos racistas a adversário. Caso aconteceu em Bertioga. Jogos de futebol aconteceram em um campo de várzea, em Bertioga, SP
G1 Santos
Um jogo de futebol de várzea clandestino terminou com acusações de injúria racial, na segunda-feira (5), em Bertioga, no litoral de São Paulo. Um dos jogadores foi chamado de “macaco” pela namorada de um adversário e o caso foi parar na delegacia. A partida ocorreu de forma irregular, já que a cidade permanece na fase emergencial do Plano SP, quando estão suspensas todas as atividades esportivas individuais e coletivas devido a pandemia do coronavírus.
O insulto aconteceu na tarde de segunda-feira, durante uma partida de futebol em um campo de várzea da cidade. O jogo ocorria normalmente entre os times quando, no segundo tempo, um jogador adversário caiu dentro da área e pediu pênalti. O autônomo Reinan Lopes chutou a bola em cima do jogador que estava caído no chão e alegou que a penalidade não aconteceu.
“Logo em seguida, a namorada dele entrou em campo, começou a me xingar. Aí, na lateral do campo, ela me disse: ‘Vai seu macaco’. Isso me doeu demais, meu olho encheu de lágrimas”, disse Reinan Lopes, em entrevista ao G1.
O autônomo relata que os outros jogadores que estavam em campo na hora o apoiaram e queriam paralisar a partida. “Teve um amigo meu de infância, que estava no time adversário e se arrepiou, disse que isso não se falava para ninguém. O outro colega queria parar de jogar, mas eu falei para continuarmos a partida, mas ficou no ar aquele clima meio triste. A gente acha que não vai acontecer com ninguém perto. Dói demais”, afirma.
Lopes diz que sempre jogou futebol e nunca tinha sido insultado ou desrespeitado desta forma. Após o fim do jogo, ele foi cumprimentar todos e falou com a mulher quem fez o insulto racista. Ele conta que ela pediu desculpas e afirmou estar de ‘cabeça quente’.
Ao chegar em casa, o autônomo contou para toda a família o que havia acontecido no jogo. Os familiares o incentivaram a registrar um boletim de ocorrência de injúria racial na delegacia.
“Minha esposa, na hora, ficou brava, chateada, queria ir na casa da mulher. Minha família me incentivou a fazer o boletim. Se não fosse eles, eu não teria feito. Para não ficar calado, fiz o que tinha que fazer. Se fosse homem, eu teria brigado, mas com mulher não se briga”, disse.
Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a injúria racial está prevista no artigo 140, parágrafo 3º, do Código Penal, que estabelece a pena de reclusão de um a três anos e multa, além da pena correspondente à violência, para quem cometê-la. De acordo com o dispositivo, injuriar seria ofender a dignidade ou o decoro utilizando elementos de raça, cor, etnia, religião, origem ou condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência.
Depois do insulto racista, Lopes afirma que só pensa em seguir em frente e que não quer confusão. “Espero que ela aprenda com isso e que racismo é crime”.
Outro lado
O G1 conversou com a mulher, que preferiu não ser identificada. Ela afirma que Reinan apontou o dedo na sua cara, xingando e a empurrando. Segundo ela, ao sair de campo, ela foi xingada novamente por ele. A mulher diz que está sendo difamada e que essas acusações de injúria racial estão afetando sua vida.
“Era um jogo clandestino, tão me caluniando, falando que sou racista. Não sou de jeito nenhum, tenho familiares negros. Por conta desta difamação, isto está me afetando”, relata.
Ela diz que foi até a delegacia também registrar um boletim de ocorrência, mas que os policiais não quiseram ouví-la. “Fui na delegacia, mas não consegui fazer b.o. contra ele porque não quiseram me ovuir. Já procurei advogado. Ele colocou o dedo no meu olho e acabou machucando” reclama.
Prefeitura
O jogo de futebol citado na reportagem ocorreu de forma irregular. Bertioga voltou na segunda-feira para a fase emergencial do Plano SP em que estão suspensas todas as atividades esportivas individuais e coletivas, tanto profissionais como amadoras. As restrições seguirão até dia 11 de abril, de acordo com o decreto n° 3.650.
Em nota, a Prefeitura de Bertioga disse que a Secretaria de Segurança e Cidadania não recebeu denúncias de jogos de futebol ou de racismo. Não há previsão de multa.
As ações de fiscalização acontecem em todos os bairros e, durante a fiscalização, a Prefeitura realiza orientações sobre o uso de máscaras faciais e sobre a importância de respeitar o distanciamento mínimo entre as pessoas.
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