Novos vídeos mostram PMs abordando com truculência voluntários de ONG que distribui comida na Cracolândia

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Representante do Projeto Pão do Povo da Rua relata ter problemas do tipo ‘semanalmente’. Em outras cenas, funcionários da prefeitura lavam ruas com pessoas nas calçadas. Vídeos mostram PMs abordando voluntários com truculência na Cracolândia
Novos vídeos divulgados mostram policiais militares abordando com truculência voluntários de Organização Não Governamental (ONG) que doa comida à população em situação de rua na Cracolândia, no Centro de São Paulo, durante a pandemia de Covid-19. Em outras imagens é possível ver também funcionários da prefeitura lavando as ruas com as pessoas ainda ocupando as calçadas (veja acima).
“Temos problemas semanalmente. Semanalmente, em algum momento, a gente é abordado ou pela GCM [Guarda Civil Metropolitana] ou pela outra polícia ou pelo pessoal da limpeza urbana”, disse Ricardo Frugoli, do Projeto Pão do Povo da Rua.
Na segunda-feira (5), o coletivo Craco Resiste já havia divulgado outros 12 vídeos que mostram ações violentas da Guarda Civil Metropolitana (GCM) contra os moradores de rua na Cracolândia (veja alguns abaixo). A região é conhecida por esse nome devido à presença de usuários e de traficantes de drogas.
Segundo a Craco Resiste, as imagens foram gravadas por seus membros entre o final de dezembro de 2020 até março deste ano. Elas mostram guardas civis usando armas e disparando bombas de gás, balas de borracha, usando spray de pimenta e dando golpes de cassetetes, aparentemente sem motivo, nas pessoas que ocupam praças e ruas da região com barracas.
OAB pede a Ministério Público uma investigação sobre abusos da GCM na Cracolândia
Os vídeos e essas denúncias estão num dossiê que o coletivo entregou à Defensoria Pública e à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em São Paulo.
O objetivo da Craco Resiste é que esses órgãos levem as denúncias de violência cometidas pelos guardas civis e pelos policiais militares na Cracolândia para o Ministério Público (MP). O coletivo quer que a Promotoria apure as eventuais responsabilidades dos agentes envolvidos e busque suas punições na Justiça.
“O dossiê prova o que a gente fala há muitos anos: há um massacre na região, não é confronto, como as autoridades repetem. Agora a gente vê que é uma política pública. Tem vários vídeos que mostram as pessoas sendo agredidas com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo sem fazerem nada. E a gente também mostra que o custo disso é absurdo, para algo absolutamente ineficiente porque ninguém sai da rua ou do crack porque apanhou”, disse Roberta Costa, uma das voluntárias da Craco Resiste.
O que dizem os citados
Craco Resiste divulga vídeos com ações violentas da GCM na Cracolândia durante pandemia
A Polícia Militar informou que dá apoio para as ações da GCM e da prefeitura e que apreendeu em 15 meses mais de 100 armas brancas, como facas, e armas de fogo, como revólveres, na Cracolândia. Comentou ainda que a Corregedoria da PM está à disposição para registrar denúncias de abuso.
Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Paulo comentou as denúncias feitas pela Craco Resiste contra a Guarda Metropolitana.
“A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, informa que as imagens fornecidas não permitem uma análise apropriada, pois não mostram toda a dinâmica das ocorrências, mas apenas um recorte da ação dos guardas”, informa um trecho do comunicado.
De acordo com Roberta, a Craco Resiste entende que os problemas na Cracolândia vão terminar quando o poder público e as autoridades resolverem algumas questões: falta de moradia na região; legalização das drogas, fim do encarceramento para todos os crimes; acolhimento de saúde mental à população; criação de espaços de convívio social.
Segundo Arthur Guerra, coordenador do programa Redenção, da prefeitura, para tentar recuperar usuários de drogas, a violência das forças de segurança não ajuda.
“Eu não consigo imaginar que os guardas tenham uma aptidão interna, uma vocação interna à violência para essas pessoas em alta vulnerabilidade”, disse Guerra. “Vez ou outra existe uma situação que deflagra a violência.”
Vídeos mostram ação da GCM na Cracolândia
Cronologia das ações violentas da GCM
31 de dezembro de 2020 – Um dos vídeos mostra a tropa jogando uma bomba contra um homem que está abaixado no chão.
16 de janeiro de 2021 – Guardas disparam bombas contra uma multidão. A Craco Resiste pediu informações sobre a ação via Lei de Acesso à Informação e obteve a resposta de que a GCM “não usou munição menos letal na operação deste dia”.
20 de janeiro – A sequência de vídeos mostra uma multidão na esquina da Rua Helvétia com a Alameda Dino Bueno, enquanto guardas usam balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. O relatório da ONG aponta que neste dia a corporação gastou R$ 2.928,16 com 48 tiros de bala de borracha e quatro bombas de gás.
29 de janeiro – Guardas disparam bombas de gás contra a população que estava no local. O relatório da ONG indica que nesse dia foram gastos R$ 3.507,32 com 8 bombas de gás e 21 balas de borracha.
30 de janeiro – Os guardas voltaram ao local e, na Alameda Dino Bueno, jogam bombas de gás contra as pessoas. O levantamento da ONG mostra que foram usadas nesta ação 11 balas de borracha e nove granadas de gás ao custo de R$ 3.550,32.
20 de fevereiro – Um guarda dispara um jato de spray de pimenta contra pessoa que se aproxima dele.
5 de março – Guardas civis lançam granadas contra o “fluxo” (nome dado ao local onde os usuários de drogas se reúnem) na Cracolândia. Neste dia, a GCM usou 11 bombas de gás e 4 balas de borracha ao custo de R$ 4.043,48.
9 de março – Um homem é empurrado por um guarda e agredido com spray de pimenta. Os guardas também lançam bombas e balas de borracha contras outras pessoas.
12 de março – Um carro da GCM avança sobre um homem deitado no chão.
16 de março – Guardas se aproximam da fila de banheiro químico na região e um deles dá um soco no peito de um homem.
27 de março – Guardas jogam bombas de gás contra pessoas na esquina da Alameda Cleveland e da Rua Helvétia. As pessoas atiram rojões contra os guardas, que seguem até a Alameda Dino Bueno, quando disparam mais bombas.
29 de março – Guardas disparam balas de borracha e bombas na Rua Helvétia.
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