Aldeia indígena em Guarulhos tem ocas usadas como ‘casas de reza’ incendiadas

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Consideradas sagradas pelos moradores, ocas abrigavam espaço de oração e encontros. Denúncia foi feita por Vanuza Kaimbé, primeira indígena vacinada contra a Covid no estado de SP. Aldeia ‘Filhos da Terra’, em Guarulhos, tem casas de reza incendiadas neste domingo, 4 de abril
Arquivo pessoal
A aldeia multiétnica ‘Filhos da Terra’, em Guarulhos, na Grande São Paulo, teve duas ‘casas de reza’ incendiadas neste domingo (4). Segundo os moradores, os incêndios foram criminosos, mas eles não têm pistas de quem possa ter colocado fogo nas ocas.
Uma das moradoras da aldeia é a técnica de enfermagem e assistente social Vanuza Kaimbé, de 50 anos, primeira indígena a ser vacinada contra a Covid no estado de São Paulo. Ela contou que, por volta das 9h do domingo, eles escutaram um estrondo e avistaram a fumaça. “Quando a gente chegou já tinha queimado tudo, não deu para salvar nada”.
Indígenas de aldeia na Zona Sul de SP mantêm distanciamento social após tomarem vacina contra a Covid-19
Vanuza disse que cerca de 25 famílias vivem no local, e que as casas onde moram não são no mesmo espaço onde estavam localizadas as ocas. “Fizemos varredura para ver se encontrávamos alguém”, conta Vanuza.
No mesmo dia, por volta das 14h, Vanuza escutou outra explosão. Uma segunda oca havia sido completamente queimada, e uma terceira estava com princípio de incêndio, mas os moradores conseguiram preservá-la.
A aldeia fica no bairro Cabuçu, próxima a uma obra parada do Rodoanel, um local de fácil e livre acesso.
Ocas são incendiadas em aldeia multiétnica de Guarulhos, na Grande São Paulo
Arquivo pessoal
Segundo Vanuza, os indígenas ainda não decidiram se irão registrar boletim de ocorrência, pois tem medo de retaliações. “A gente não sabe quem foi, ninguém viu, não temos nenhuma suspeita”.
No entanto, ela relata ter recebido xingamentos nas redes sociais após ter sido vacinada. “Fui xingada de cínica, hipócrita, como se tivesse privilégios [por ser imunizada primeiro]”. A população indígena faz parte da primeira fase de vacinação contra a Covid, de acordo com o Plano Nacional de Imunização (PNI).
Os espaços que foram incendiados são considerados sagrados para os moradores. “É onde a gente faz as nossas rezas, reuniões, cafés tradicionais, é onde a gente se encontra. Traduzindo, é como se fosse a igreja do não-indígena”, disse Vanuza.
Após o episódio, a aldeia agora pensa em cercar o local com arames. “Nossa aldeia não tem cerca, não tem muro, é uma situação de vulnerabilidade. Estamos pensando em cercar, colocar arame. A gente não gosta de viver assim, mas como estamos dentro do contexto urbano precisamos nos proteger”, disse a enfermeira.
Os indígenas disseram que comunicaram o incêndio à à Fundação Nacional do Índio (Funai) e à Prefeitura de Guarulhos, que esteve nesta segunda-feira (5) no local para prestar assistência aos moradores.
A Subsecretaria da Igualdade Racial (SIR), vinculada à Secretaria Municipal de Direitos Humanos (SDH) de Guarulhos, informou que tomou conhecimento no mesmo dia sobre o incêndio e que “manteve contato com lideranças para obter mais informações e prestou orientações e atendimento à comunidade diante do acontecimento”.
A pasta disse ainda que acionou a Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social (SDAS) e a Defesa Civil para a distribuição de cestas básicas e kilts de higiene.
A indígena Vanuza Costa Santos recebendo a vacina CoronaVac contra A Covid-19 no Hospital das Clínicas, em São Paulo, no dia 17 de janeiro
Nelson Almeida/AFP

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