Médico de UTI Covid de SP relata operação de guerra para atender em plantão: ‘Eram pacientes graves atrás de pacientes graves’

2 de abril de 2021 0 Por
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‘Se a população não ficar em casa agora na Páscoa, não sabemos o que está por vir. 3.000 mortes diárias? Já batemos. 4.000? 5.000? É surreal’, afirma André Miranda Baptista, que está na linha de frente de combate ao coronavírus desde o início da pandemia. André Miranda Baptista, de 34 anos, médico residente em infectologia do Instituto de Infectologia Emílio Ribas
Arquivo pessoal
O que o médico André Miranda Baptista, de 34 anos, viu ao chegar ao seu plantão mais recente, em março, em um hospital particular da cidade de São Paulo era uma “cena de guerra”. Foram 12 horas tensas em que as equipes das mais diversas áreas tiveram de se unir para dar conta de reorganizar a estrutura do local e atender ao aumento repentino no número de casos – a maioria deles, graves.
“A situação foi caótica. [O hospital tem] uma estrutura física considerável, de macas, de pontos de oxigênio, de leitos de emergência, e o que vi ao chegar ao plantão foi uma demanda praticamente três vezes maior do que a que estamos acostumados a receber por dia”, conta.
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Ele relata que foram 12 horas sem parar, sem sentar, sem comer: “Eram pacientes graves atrás de pacientes graves, tivemos que mudar toda a estrutura, descer maca extra, tirar poltrona e colocar maca no lugar, utilizar todos os pontos de oxigênio, trazer balões de oxigênio extras, porque os pontos não eram suficientes. Tivemos que intubar pacientes, o que não era a realidade dos nossos plantões ali, porque não costumavam chegar pacientes tão graves”.
“Se não fosse a união da equipe toda, médica, enfermagem, fisioterapia, o pessoal da manutenção e da administração, teríamos perdido vidas naquele dia. Mas foram 12 horas correndo de um lado para o outro. Fazendo procedimentos, intubando pacientes, manejando ventilador. Foi nesse dia que eu parei, olhei tudo aquilo e falei: ‘Colapsou’.”
Feriados e aumentos dos casos
André também é médico residente em infectologia do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na Zona Oeste de São Paulo, e, tanto na semana após o Natal quanto na seguinte ao Ano Novo, uma história se repetiu: pacientes mais velhos chegavam para ser internados após terem se reunido com a família.
“O relato era o seguinte, quando eu perguntava quando começaram [os sintomas], as pessoas respondiam: ‘Doutor, no fim do ano agora, no Natal, nós reunimos a família, e uma semana depois, quatro dias depois, eu comecei com tosse, com febre, todo mundo pegou Covid’. No início de janeiro, a mesma coisa. Aí, no caso, os pacientes que davam entrada no pronto-socorro ou na UTI eram normalmente os avós dessas famílias.”
Agora, com a proximidade da Páscoa, a preocupação com as aglomerações em família voltaram: “Eu apelo para que as pessoas fiquem em casa, para que a história do Natal e do Ano Novo não se repita. Não gostaríamos de escutar novamente esses relatos da família que se aglomerou e se contaminou. E, desta vez, a gente não sabe se vai ser o avô, o pai ou o filho que vai aparecer no pronto-socorro”.
E aproveita para fazer um apelo: é preciso fazer um esforço para reduzir a circulação nas ruas. “Se a população não ficar em casa, não sabemos o que está por vir. 3.000 mortes diárias? Já batemos. 4.000? 5.000? É surreal. São 3.000 pessoas por dia que tinham famílias, sustentavam suas famílias, tinham obrigações sociais e que não estão mais aqui.”
Equipe de saúde cuida de paciente internado com Covid-19 na UTI do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, no dia 17 de março.
Miguel Schincariol / AFP
Mudança no perfil nas UTIs
“Hoje, 100% dos leitos [do Emílio Ribas] estão ocupados, com uma fila absurda de pedidos. E 90% são pacientes de Covid”, afirma André. Nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), é possível identificar uma mudança do ano passado para agora, além da idade média dos internados, que tem caído: “Antes, tínhamos pacientes na máscara [de oxigênio] na UTI. Hoje a grande maioria é de pacientes intubados”.
Essa mudança na gravidade dos casos impacta diretamente em um dos gargalos que estão surgindo neste momento da pandemia: a escassez de vagas em UTIs. A taxa de ocupação desse tipo de leito está em 87,8% na capital paulista.
“O fato de praticamente todos os pacientes estarem intubados prolonga também o tempo de internação na UTI e a rotatividade dos leitos. O paciente intubado está levando, em média, de sete a 14 dias na UTI. Isso é a média, porque tem pacientes que chegam a ficar 30, 40, 60 dias na UTI, e outros que têm alta antes dos sete dias.”
Os outros gargalos são a ameaça de falta de oxigênio, de falta de medicações para sedação e a escassez de profissionais para trabalhar. “Se todo mundo ficar doente ao mesmo tempo, não respeitar as normas de distanciamento e continuar aglomerando, não vai adiantar abrir leitos, porque não vai haver profissionais para trabalhar nesses leitos.”
Chegar em casa nem sempre é sinônimo de descanso para quem vem trabalhando na linha de frente contra o coronavírus há tantos meses seguidos. “É muito difícil voltar para casa. A gente não dorme bem, não consegue descansar. Muitas vezes, acordo pensando em um paciente, principalmente quando vejo uma história com final não desejado, e isso fica na cabeça, gera muita tensão. Mas a gente não pode desistir. Tem que superar o cansaço mental, físico e continuar em frente.”
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