Apesar de vacinação em massa contra a Covid-19, fiéis celebram a Páscoa on-line em Serrana, SP

2 de abril de 2021 0 Por
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‘A vida e a família vêm em primeiro lugar’, diz voluntário da Igreja Matriz. Templos estão fechados mesmo com aplicação da 2ª dose da CoronaVac em 50% do público-alvo do estudo do Butantan. Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores fará celebrações da Semana Santa on-line em Serrana (SP)
Leandro Santos/Acervo pessoal
A cerca de uma semana do encerramento da vacinação em massa contra a Covid-19, moradores de Serrana (SP) ainda viverão uma Páscoa repleta de restrições, com ritos que celebram paixão, morte e ressureição de Cristo realizadas via internet.
Na cidade, escolhida pelo Instituto Butantan para avaliar a eficácia da CoronaVac, 50% da população-alvo já recebeu a segunda dose do imunizante. O município, porém, está na fase emergencial do Plano São Paulo, que proíbe a abertura de templos religiosos aos fiéis.
O servidor público Samuel Carvalho, de 60 anos, já recebeu as duas doses. Mesmo assim, participará das celebrações da Semana Santa de casa, a dois quarteirões e meio da Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores, onde atua como voluntário na administração financeira.
“É triste, porque, apesar de a mensagem de Cristo estar chegando às pessoas, a casa de Deus fica vazia. A gente simboliza e reproduz tudo em casa, mas não é a mesma coisa, principalmente na Páscoa”, diz.
As paróquias de Serrana divulgaram com antecedência aos fiéis os horários das celebrações, que serão transmitidas pelo Facebook e pelo YouTube, assim como as das outras 19 cidades que compõe a Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP).
O servidor público Samuel de Carvalho e sua esposa participarão pela internet das celebrações da Semana Santa em Serrana (SP)
Samuel de Carvalho/Acervo pessoal
Apesar da tristeza por quebrar a tradição, Carvalho diz que se inspira na trajetória de Jesus e, com o pensamento no bem-estar coletivo, enxerga na Páscoa uma oportunidade de se reenergizar espiritualmente para enfrentar mais um ano pandêmico.
“É crucial olharmos para dentro de nós mesmos, refletirmos e pormos em prática o que aprendemos com Jesus”, diz. “A vida e a família vêm em primeiro lugar.”
Fiéis da Igreja Católica acompanham pela internet celebrações da Semana Santa em Serrana (SP)
Samuel de Carvalho/Acervo pessoal
O sentimento de Carvalho é o mesmo do consultor de automação Leandro Santos, que atua como capelão da mesma paróquia há quase uma década. Ele, porém, será um dos poucos a assistir às celebrações presencialmente, por ajudar a organizá-las.
“Pensamos que este ano seria diferente. Sabíamos que não ia poder abraçar, mas esperávamos pelo menos estar fisicamente juntos”, diz. “É muito triste, mas a gente sabe que é por um bem maior. É para proteger quem a gente ama, e a gente sabe que, perante Deus, estamos fazendo a coisa certa.”
Com 45.644 moradores, Serrana acumula 3.448 casos e 78 mortes por complicações da Covid-19, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Uma das vítimas foi o cunhado de Carvalho, que morreu após ter ficado 27 dias entubado.
“Não são só números e estatísticas. São pessoas. Antes ficarmos em casa do que em um quarto de hospital. Muita gente acha que, por já ter tomado a segunda dose da vacina, pode voltar à rotina, mas infelizmente não são todos que estão vacinados”, diz.
Essencial X não essencial
O pastor Pedro Paulo Rocha, à frente da Igreja do Evangelho Quadrangular em Serrana há 16 anos, também fará as celebrações da Semana Santa pela internet, mas espera retomar os cultos presenciais em breve.
“Igrejas são como um hospital. Funciona para atender as pessoas, dando apoio psicológico. As pessoas estão muito depressivas, porque todo dia é só notícia ruim e mortes. É aí que entra o papel essencial da igreja”, afirma.
Rocha diz que, entre janeiro e fevereiro, convidou os fiéis a retornarem à igreja de máscaras e distantes um dos outros. “Celebrações via internet têm sua força, mas não é a mesma coisa. O povo brasileiro gosta de se cumprimentar, de abraçar, de tocar”, diz.
Pastor Pedro Paulo Rocha pede volta de cultos presenciais em Serrana (SP)
Pedro Paulo Rocha/Acervo pessoal
O padre Juliano Gomes, da Igreja Matriz de Serrana, também fez celebrações presenciais entre agosto e março, obedecendo às determinações do Plano São Paulo e de Dom Moacir Silva, arcebispo metropolitano de Ribeirão Preto.
“Minha angústia e preocupação foi sempre com a pessoas idosas e as menos favorecidas, tendo vista o acesso à tecnologia”, diz. “Foi e continua sendo um período de muita doação, entrega e aprendizado em todos os sentidos.”
Gomes, contudo, espera que a as celebrações – incluindo batismos e casamentos – possam voltar a ser realizados presencialmente, já que hoje, diferentemente da Páscoa passada, sabe-se mais sobre como se proteger do vírus.
“Já sabemos como nos organizar e celebrar com segurança. Mas tendo em vista o grande número diário de morte que tende a aumentar, a minha opinião é a mesma do arcebispo, de prudência e paciência. Respeitamos a vida”, diz.
Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores fará celebrações da Semana Santa on-line em Serrana (SP)
Vinícius Alves/G1
A abertura de templos religiosos durante a pandemia gera discordância entre gestores públicos. O governador de São Paulo, João Dória (PSDB), incluiu no início de março as atividades religiosas no rol de serviços essenciais, mas revogou a decisão.
O procurador-geral da República, Augusto Aras, protocolou na noite de quarta-feira (31) um pedido para que o Supremo Tribunal Federal (STF) proíba os governos estaduais e do Distrito Federal de suspenderem a realização de atividades religiosas presenciais.
O posicionamento de Aras é semelhante ao da Advocacia-Geral da União (AGU), que também enviou uma manifestação ao STF, nesta quinta-feira (1º), um dia após o Brasil ter registrado em 24 horas 3.950 mortes por Covid-19, o maior número diário do país desde o início da pandemia.
A situação de Serrana
Em paralelo à discussão nacional, o prefeito de Serrana, Léo Capitelli (MDB), avaliará na próxima terça-feira (6) a possibilidade de reabrir os templos. “Uma das pautas [da reunião] é, de repente, a retomada de 30% da capacidade de cultos e missas”, diz.
Capitelli afirmou que está em contato com o governo estadual para avaliar especificamente a situação de Serrana no Plano São Paulo após a conclusão da vacinação em massa, prevista para 11 de abril.
Serrana (SP) vacina em massa moradores contra a Covid-19
Vinícius Alves/G1
Entre os moradores e comerciantes, a expectativa é que a retomada de atividades que não são consideradas essenciais pelo governo paulista ocorra mais cedo do que em outras cidades da região.
“A cidade vive um momento de euforia e esperança. A gente já nota uma melhoria no número de novos casos, principalmente dos graves, e isso nos traz a esperança de um 2021 de cura”, diz Capitelli.
Coordenadores da pesquisa do Butantan também têm expectativas positivas para a retomada da economia na cidade. Eles acreditam que o isolamento social atrelado à vacinação em massa podem frear a transmissão do vírus de forma mais acelerada do que em outras cidades do país.
Voluntários do Projeto ‘S’ formam fila em Serrana (SP)
EPTV/Reprodução
Projeto ‘S’
Até quarta-feira (31), 14.426 moradores de Serrana já haviam recebido a segunda dose da CoronaVac, entre os 27,7 mil que aderiram à vacinação.
Voluntários do terceiro grupo finalizam a imunização completa contra o vírus no domingo (2). As doses são aplicadas em oito escolas da cidade utilizadas como salas de vacinação.
Em seguida, de quarta-feira (7) a domingo (11), moradores do último grupo encerrarão o recebimento das doses do imunizante.
A expectativa do Butantan é divulgar os primeiros resultados da pesquisa em maio. O estudo quer avaliar a capacidade da CoronaVac em diminuir taxas de transmissão, casos graves e mortes pela Covid-19 em uma cidade inteira.
Enfermeira aplica vacinas em profissionais de saúde na abertura de vacinação em massa contra a Covid-19 em Serrana (SP)
Comunicação Instituto Butantan
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