Mãe lamenta morte do filho de 29 anos por Covid-19 em Mogi e pede consciência aos mais jovens: “A doença não escolhe e é letal”

Compartilhar


Dados da Fiocruz apontam que houve aumento expressivo de casos entre os mais jovens; pesquisador da instituição fala sobre “rejuvenescimento” da pandemia e medidas indicadas. Maior alta de casos da Covid-19 se concentra em pessoas entre 40 e 49 anos, diz Fiocruz
Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgados na última sexta-feira (26), mostraram um crescimento de casos de Covid-19 na população mais jovem.
A maior alta se concentra nas pessoas entre 40 e 49 anos, com 626% de aumento desde o dia 1º de janeiro até 13 de março. Nesta quarta-feira (31), faleceu, em Mogi das Cruzes, o ator e comediante Davi Mello, de 43 anos.
Uma das pessoas que tiveram de lidar com a perda do filho jovem para a Covid-19 foi Elieuza Aquino, que trabalha como ambulante em Mogi. Prestes a completar 30 anos, ele perdeu a vida depois de ter ficado 15 dias no hospital.
“Foi muito rápido. Ele chegou no hospital e no outro dia já foi intubado. Chegou já com 50% dos pulmões comprometidos, porque ele não acreditava que iria ficar ruim. Ele achava que iria melhorar, e aí demorou para procurar o socorro. Ele não me avisou que estava doente. Eu não sabia. Se eu soubesse, eu teria socorrido”.
Filho de Elieuza faleceu vítima de Covid-19
Reprodução/TV Diário
Hoje, as lembranças de um filho dedicado e extremamente carinhoso ficam na tela do celular. Um rapaz novo que, segundo a mãe, havia conseguido um emprego recentemente para ajudar a pagar o aluguel. Sempre preocupado com a pandemia, assim que foi contratado, ele se isolou da família, mas não conseguiu fugir da doença.
“Os jovens precisam tomar cuidado, porque a doença existe, ela é letal, ela mata. Eles precisam ter essa consciência. E que a doença não escolhe. Os jovens precisam acordar, ter responsabilidade, entender que eles têm familiares, têm mãe como eu, que sofre depois, que chora depois a dor. Meu filho era grande. Ele tinha 1,90, pesava 90 quilos. Ele não achava que iria morrer, mas não aguentou. Minha filha disse que ele morreu em uma situação feia, estava muito triste, tentando respirar e sem poder”.
Segundo o estudo da Fiocruz, hoje, as pessoas que mais estão se infectando são aquelas que têm entre 30 e 59 anos. Ainda segundo o estudo, a mortalidade continua entre os mais velhos.
De acordo com os dados apresentados nas dez primeiras semanas do ano, foi verificado um aumento de 316,88% nos casos de Covid-19. Na faixa etária de 30 a 39 anos, o aumento foi de 565,08%. As pessoas que mais se infectaram foram as que têm entre 40 e 49 anos, com um aumento de 626%. Já entre as pessoas de 50 a 59 anos, os casos subiram 525,93%.
Mesmo neste momento, considerado o pior da pandemia no país até então, não é difícil encontrar quem desrespeite as regras sanitárias. A reportagem da TV Diário esteve no Centro de Mogi e flagrou várias pessoas sem máscara, desde crianças até idosos.
“Estamos vivendo um momento muito delicado. Se não for trabalhar, fique em casa, porque os médicos já não aguentam mais”, disse a camareira Maria do Socorro Carvalho.
Em relação aos dados de Mogi das Cruzes, o número de óbitos entre jovens de 20 a 29 anos foi de 11 desde o começo da pandemia. Entre aqueles na faixa de 30 a 39 anos, foram 24 mortes, e, entre 40 e 49 anos, foram 62 óbitos. Entre as 875 mortes na cidade, a maior parte continua sendo de idosos entre 70 e 79 anos, com 247 óbitos registrados.
Fase atual da doença
Sobre esse assunto, o Diário TV conversou, ao vivo, com Raphael Mendonça Guimarães, que é pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz. Em primeiro lugar, ele foi questionado sobre as causas de o vírus atingir os mais jovens, na avaliação dos especialistas (assista à entrevista completa no vídeo acima).
“A gente acha que o rejuvenescimento da pandemia deve ter uma relação com o relaxamento do distanciamento social. Essa população um pouco mais jovem, especialmente entre 30 e 59 anos, é uma população que tem estado mais na rua, possivelmente retornando às atividades presenciais no trabalho, ou em busca de subsistência, porque a gente teve um aumento da taxa de desocupação ao longo desse último ano. Portanto, são pessoas que estão desassistidas, sem qualquer forma de subsistência”.
O pesquisador também foi perguntado sobre qual seria a influência das novas variantes do vírus sobre o aumento de casos observado em pessoas mais jovens no Brasil.
“A gente não tem evidência que fale sobre isso. Não é que as variantes sejam mais agressivas com esse grupo mais jovem. Possivelmente, o que acontece é que, quando você tem uma variante circulante, você renova a população de vulneráveis, de suscetíveis à contaminação. Se neste momento de surgimento de novas variantes você tem um contingente maior de pessoas jovens circulando, essas serão as pessoas que vão estar sendo infectadas”.
Em relação à prevenção, o profissional da Fiocruz também foi questionado se, na visão dele, o isolamento social deveria ser adotado em todo o território nacional.
“Deveria. A gente tem que ter medidas de combate mais rigorosas contra a pandemia neste momento. De forma imediata, a ser realizada em curto prazo, as recomendações que a gente tem provocado são de manutenção de toque de recolher, de fechamento de comércio para as atividades que não são essenciais, e que a gente consiga manter esse tipo de estratégia por algum tempo, até que a gente consiga conter um pouco mais o avanço da pandemia”.
“E, em médio e longo prazo, nós recomendamos fortemente a questão do distanciamento, que possa vir, na verdade, acompanhado de medidas de proteção social, porque a verdade é que a gente não pode simplesmente dizer para as pessoas ficarem em casa se isso não garante a elas meios mínimos de sobrevivência. Então a gente precisa de um Estado forte, que garanta a possibilidade de essas pessoas permanecerem em casa, a partir dos auxílios emergenciais, de forma que elas não precisem ir para a rua em busca de subempregos e que acabem aglomerando, ainda que isso não represente para elas um ganho em termos de salário”.
Assista a mais notícias do Alto Tietê

Compartilhar

Deixe uma resposta