Em três meses, Campinas alcança 58% das mortes por Covid-19 registradas em 2020; março se torna mês mais letal da pandemia

1 de abril de 2021 0 Por
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Mesmo sem consolidação dos dados, mês já ultrapassa julho de 2020 em 60 mortes. Secretário de Saúde espera abril melhor e infectologista da Unicamp teme que Páscoa gere ascensão em internações. Mesmo antes da consolidação dos dados, março já se tornou o mês com mais mortes por Covid-19 em Campinas (SP) ao superar julho de 2020, quando houve o pico da primeira onda da pandemia. A diferença entre um mês e outro já chega a 60 óbitos. Além disso, em três meses, 2021 já soma 58,73% do total de falecimentos pela doença que todo o ano passado.
O município tem 469 mortes em março, número que vai aumentar porque os boletins diários notificam óbitos de dias anteriores. No recorde anterior, julho somou 409. Em relação ao total de mortes, 2021 tem 884 contra 1.505 dos 10 meses de pandemia no ano passado.
Ao repassar as causas da tragécia, a infectologista da Unicamp Raquel Stucchi relembra que as primeiras notícias sobre a vacina contra Covid-19 surgiram no último semestre de 2020, em um momento de queda geral nos números. Em sequência, ocorreram feriados em novembro, eleições, festas de fim de ano e o aparecimento da variante brasileira mais transmissível.
“Então nós juntamos as pessoas que começaram a sair muito, isso propiciou o aparecimento de uma nova variante que transmite de uma forma muito rápida. As pessoas continuaram se aglomerando e não dando atenção a isso, e a vacina não chegou. Ou se chegou, foi numa velocidade que é absolutamente incapaz de fazer qualquer contenção do coronavirus e da variante”.
Raquel, que é consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, aponta que o posicionamento do governo federal, que criticava as medidas de isolamento e não estimulava o uso de máscara, também têm impacto no recrudescimento da pandemia.
“Uma pessoa que está há um ano trancada em casa, que precisa sair para trabalhar e com dificuldade para ter seu sustento porque o auxilio acabou, ela vai pender para o lado que vai resolver a vida dela. De um lado fica o presidente e o ministro da Saúde da época falando uma coisa e do outro nós, infectologistas. Aí ela ouve e fala ‘a vida está dura, vou seguir o que o presidente fala'”, analisa.
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A infectologista da Unicamp Raquel Stucchi
Reprodução / EPTV
Secretário de Saúde de Campinas, Lair Zambon elenca como fatores o cansaço geral com as regras de restrição, a presença das variantes mais transmissíveis do vírus, o crescimento de casos de outras doenças que ficaram represadas em 2020 e a “pandemia da ignorância”.
“Eu acho que estamos vivendo duas pandemias no Brasil. Uma pandemia da doença e outra da ignorância. É uma coisa que envolve educação, e essa pandemia ela tem nos atrapalhado muito. Principalmente as pessoas que negam a ciência, que negam a máscara, que negam o distanciamento social. Isso tem prejudicado muito a digressão dos casos de Covid-19”.
E abril?
Com o rápido aceleramento do número de mortes, internações e casos, as prefeituras decretaram regras restritivas e toque de recolher, o que impacta na circulação. Os primeiros resultados mostram uma estabilização nos indicadores. A preocupação, segundo Raquel, é com o feriado a Páscoa e demais datas festivas.
“Me preocupa muito qual será o comportamento das pessoas agora, neste final de semana. Porque se as pessoas não entenderem que não é para ter contato com ninguém fora do seu núcleo de convívio diário, nós vamos ter daqui 10 dias um novo aumento de procura de sintomáticos respiratórios, de necessidade de internação”, analisa.
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A infectologista também lamenta a antecipação de feriados na capital do estado, que pode ter estimulado viagens de paulistanos ao interior e litoral. Em São Sebastião (SP), a barreira sanitária montada para realizar exames em turistas gerou fila de 2 horas e encontrou 19 contaminados.
Com base nos dados de Campinas, o secretário de Saúde aponta para a estabilização nas novas internações, o que é positivo se comparado às semanas anteriores. A expectativa dele é que, na melhor das hipóteses, em cinco dias o número de pacientes que darão entrada nos hospitais seja menor que o de saída das unidades.
“Eu imagino que, em quatro a cinco dias, a gente comece a ter uma inflexão na curva. Essa é a hipótese mais otimista, porque outra hipótese é que ainda fique mais 10 dias ou duas semanas ainda estáveis para depois começar a cair”.
Portanto, a expectativa do titular da Saúde é que abril seja melhor em termos de controle e atendimento da pandemia.
Lair Zambon, secretário da Saúde de Campinas (SP)
Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas
Zambon defende as medidas restritivas adotadas na cidade ao afirmar que o próximo passo seria um fechamento severo que atingiria o transporte público durante o dia, o que poderia afetar a área de saúde, já que profissionais utilizam os ônibus para o trabalho.
Ao lembrar as críticas sobre o fechamento das escolas, o secretário afirma que não é fácil adotar fechamentos de qualquer ordem.
“Nós somos criticados porque não abrimos escolas. O problema é que nesse nível de contaminação e nesse nível de pessoas internadas, qualquer tipo de movimento que ocorre na cidade já piora. É por isso que nós tomamos todas essas medidas duras”.
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