Mesmo com liminar, mulher luta para conseguir vaga na UTI para mãe em estado grave por Covid-19

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Damaris Boneti de Oliveira está internada na UPA de Mongaguá aguardando um leito de UTI. Família conseguiu uma liminar que obriga o estado a disponibilizar um leito. Mulher está internada aguardando uma vaga de UTI
Arquivo pessoal/Renata Boneti Araújo
“Ela vai morrer por não ter ninguém escutando a gente. Só estou esperando uma notícia ruim”. Esse é o desabafo de Renata Boneti Araújo, que luta por uma vaga em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para a mãe, que foi diagnosticada com Covid-19 e está intubada em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Mongaguá, no litoral paulista. A família conseguiu uma liminar, que obriga o Governo de SP a transferi-la, mesmo que seja para um hospital particular. No entanto, a Secretaria de Saúde afirma que não notificada.
Damaris Boneti de Oliveira, de 58 anos, começou a sentir os sintomas da doença a pouco mais de uma semana, segundo a filha, e foi levada para uma unidade de saúde. No local, o médico diagnosticou a paciente com dengue. “Ele disse que os sintomas eram de dengue, receitou os remédios e a mandou para a casa”, afirma Renata.
Dois dias depois, ela piorou e a família resolveu levá-la na UPA Agenor de Campos. Por meio de um raio-x, o médico afirmou que ela estava com Covid-19, pois achou indícios da doença no pulmão, segundo a filha. “Ele [médico] disse que não havia respirador para ela, pois havia pacientes em estado mais grave, e que era para ela cuidar em casa”, conta. Com os remédios prescritos, ela foi liberada.
Renata chegou a alugar um cilindro de oxigênio para ajudar a mãe a respirar melhor enquanto estava em casa. No último dia 26, o quadro da mulher piorou e ela acabou sendo internada. “Os remédios já não faziam mais efeito e ela estava muito ruim”, afirma. Na madrugada de segunda-feira (29), Damaris piorou novamente e teve de ser intubada, pois estava com os 55% dos pulmões comprometidos.
Na UPA, a administração afirma que não pode fazer nada, que é para procurar a prefeitura.
“A prefeitura fala que não pode fazer nada e tem que ir para a Cross, que afirma ter uma lista de espera e nada pode ser feito. Eu não sei para quem eu devo implorar pela saúde da minha mãe. Se ela continuar ali [na UPA], ela vai morrer. Ninguém consegue uma vaga para ela. Deus está segurando um soprinho dela ali”, diz.
Liminar
A filha explica que a paciente precisa de um leito de UTI para receber um tratamento mais eficiente para a doença, mas que a cidade não possui o serviço. Diante da situação, os dados dela foram inseridos na Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross), para tentar uma vaga em algum hospital da região.
“Entrei com um pedido de liminar na Justiça porque o caso dela só está piorando. O médico falou que ela precisa urgente de uma UTI para que ela receba todo o respaldo necessário, porque aqui, eles não têm muito o que fazer”, relata.
O pedido para a transferência foi feito na 2ª Vara Civil de Mongaguá e, no início da noite de terça-feira (30), o juiz Bruno Nascimento Troccoli concedeu a liminar com tutela de urgência para que o Estado de São Paulo disponibilize uma vaga de UTI na rede pública.
Caso não haja, segundo a decisão, o Estado foi intimado a custear a internação em uma UTI da rede privada e ainda promover a transferência. Apesar da liminar, Renata ainda não conseguiu a vaga para a mãe.
“Eu não consigo transferir, não consigo achar um hospital. Além da Covid-19, ele já teve um AVC, é cardiopata, toma vários remédios e está recém operada. Além da doença, ela tem muitos problemas de saúde. Ela precisa muito de uma vaga. Estou só estou esperando uma notícia ruim. Tudo o que eu podia fazer, eu já fiz”, desabafa a filha.
Paciente foi internada na UPA Agenor de Campos, em Mongaguá.
Divulgação/Prefeitura de Mongaguá
O advogado da família, Paulo Barbosa afirma que o Estado não está cumprindo com a determinação da Justiça e relata que profissionais da saúde chegaram a destratar a filha da paciente enquanto ela buscava pela vaga.
“O juiz concedeu a liminar e ela tinha que ir para um hospital particular, se o governo não tiver vaga. Mesmo assim eles [estado] não estão cumprindo. Os profissionais de saúde acabaram distratando ela [filha]. É certo que estão todos estressados por causa da pandemia e pelo medo da doença, mas não justifica um profissional destratar alguém”, afirma.
Governo do Estado
Em nota, a Secretaria da Saúde Estadual informou que a Central de Regulação de Ofertas e Serviços de Saúde (Cross) não foi notificada da decisão até o momento, mas está à disposição da Justiça e está monitorando o caso da paciente.
A pasta afirmou que, nesta quarta-feira ainda não houve atualização do estado de saúde dela e que essas informações são essenciais para que o caso seja direcionado ao serviço de saúde adequado.
Ainda conforme a secretaria, a demanda da Cross cresceu 117% em comparação no pico da pandemia. Atualmente, são cerca de 1,5 mil pedidos por dia, contra 690 em junho de 2020, quando ocorreu o auge da primeira onda. Cerca de 35% das solicitações diárias referem-se a leitos de UTI.
As transferências dependem da disponibilidade de leitos e de condição clínica adequada para que o paciente seja deslocado com segurança até o hospital de destino, de acordo com a pasta.
Ainda segundo a nota, até terça-feira, mais de 31 mil pessoas estavam internadas por suspeita ou confirmação de Covid-19 em todo o estado. A taxa de ocupação registrada na data era de 89,9% nos leitos de UTI exclusivos para a doença na Baixada Santista.
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