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Júri de ex-PM e GCM acusados da maior chacina de SP deve ser retomado nesta terça; eles respondem por 17 mortes em 2015

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Victor Cristilder e Sérgio Manhanhã são acusados de matar vítimas em Osasco e Barueri para vingar assassinatos de policial militar e GCM. Eles começaram a ser julgados na segunda (22) em Osasco. Previsão é de que julgamento termine na quinta (25). PM e guarda civil voltam a ser julgados pela maior chacina de SP
O novo júri do ex-cabo da Polícia Militar (PM) Victor Cristilder Silva dos Santos, de 37 anos, e do guarda-civil municipal Sérgio Manhanhã, de 48, acusados de participarem da maior chacina da história do estado de São Paulo, deve ser retomado nesta terça-feira (23). Eles respondem presos preventivamente por 17 assassinatos e sete tentativas de homicídio em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, em 2015. Ambos negam os crimes.
A previsão é de que o julgamento dos réus recomece a partir das 10h desta terça no Fórum Criminal de Osasco. O júri popular do ex-PM e do agente da Guarda Civil Municipal (GCM) de Barueri começou na manhã de segunda-feira (22) mas foi interrompido à noite. A expectativa do Tribunal de Justiça (TJ) é de que o julgamento termine na quinta-feira (25).
Cristilder e Manhanhã estão sendo julgados novamente porque os júris anteriores que os condenaram foram anulados pelo Tribunal de Justiça, que marcou um novo e único júri para ambos (saiba mais abaixo).
De acordo com o Ministério Público (MP), os dois são acusados de integrar grupo de extermínio, formado por agentes das forças de segurança pública, que matou e feriu as vítimas a tiros em ataques cometidos na noite de 13 de agosto de 2015 em Barueri e Osasco. Câmeras de segurança gravaram as execuções que foram cometidas por homens armados e encapuzados (veja o vídeo acima).
Ainda de acordo com a acusação, os atiradores executaram as vítimas para vingar os assassinatos de um policial militar e de um guarda-civil, respectivamente nos dias 8 e 12 de agosto de 2015.
1º dia de júri
O ex-PM Victor Cristilder e o GCM Sérgio Manhanhã são acusados de 17 mortes na maior chacina do estado de São Paulo, em 2015
Reprodução/TV Globo
Por causa da pandemia de coronavírus, o novo júri do ex-PM e do GCM não tem a presença da plateia ou da imprensa. Das 40 testemunhas de acusação e defesa que foram convocadas inicialmente, 16 foram dispensadas na segunda-feira.
E das 24 testemunhas arroladas que ficaram, seis foram ouvidas no primeiro dia do julgamento. Pelo rito processual prestam depoimento primeiro todas as testemunhas chamadas pela acusação. Depois são ouvidas àquelas convocadas pela defesa dos réus. Algumas testemunhas acabam sendo comuns entre as partes, ou seja, foram escolhidas tanto pelo Ministério Público quanto pelos advogados dos acusados.
Na segunda-feira, o MP, a defesa e o juiz ouviram os depoimentos de duas testemunhas que sobreviveram à chacina. Elas estão no grupo de sete pessoas que foram feridas pelos tiros. A terceira testemunha ouvida é o filho de um dos mortos.
Também prestaram depoimentos dois delegados que investigaram o caso e um capitão da PM que atendeu a ocorrência. Nesta terça-feira a previsão é começar a ouvir parte das 18 testemunhas que sobraram. Só depois que todas as testemunhas forem ouvidas é que terá início o interrogatório dos réus, um por vez.
Após essa etapa, ocorrerão os debates entre acusação e defesa. Por último, os sete jurados votarão pela absolvição ou condenação dos réus. A juíza Elia Kinosita dará a sentença de acordo com a decisão da maioria dos jurados. No caso de eventual condenação dos acusados, ela aplicará a pena.
Júris anulados
Parentes das vítimas da chacina de 2015 colocaram faixas em frente ao Fórum de Osasco para pedir a condenação dos réus
Filippo Mancuso/TV Globo
É a segunda vez que Cristilder e Manhanhã vão a júri popular pelos mesmos crimes. Na primeira, entre 2017 e 2018, ambos foram condenados pela chacina a penas, que somadas, chegam a mais de 200 anos.
Mas a defesa recorreu e o Tribunal de Justiça anulou essas condenações em 2019. A alegação foi de que os jurados votaram contra as provas do processo, que já tem mais de 30 mil páginas. Por esse motivo, o TJ determinou que os acusados fossem julgados novamente num único júri.
Outros dois policiais militares acusados da chacina continuam presos após terem sido condenados em 2017 pelos homicídios. As penas deles somam mais de 500 anos (saiba mais abaixo).
O que diz a defesa
Advogado João Carlos Campanini e ex-PM Victor Cristilder em julgamento de 2018 que o havia condenado pela chacina
Amanda Perobelli/Estadão Conteúdo
O advogado do ex-PM e do GCM, João Carlos Campanini, declarou na semana passada que irá provar a inocência de seus clientes.
“Já ficou comprovado nos autos que eles não participaram da chacina. As provas documentais, periciais e testemunhais tornam evidente a inocência de ambos”, afirmou Campanini, na semana passada, ao G1, sobre como será a defesa de seus clientes no novo julgamento.
O que diz a acusação
Por causa da pandemia de Covid, os sete jurados ficarão no plenário do Fórum de Osasco, afastados com distanciamento social
Divulgação/TJ-SP
O promotor Marcelo Oliveira acusa Cristilder e Manhanhã pelos crimes de homicídio doloso qualificado (meio cruel e recurso que dificultou a defesa das vítimas), tentativa de homicídio e formação de quadrilha.
“O Ministério Público pedirá a condenação e espera serenamente que eles sejam condenados, como já o foram, quando do primeiro julgamento”, disse Oliveira à reportagem. “Verdadeiro ato terrorista que foi praticado em Osasco e Barueri”.
A defensora pública Maira Coraci Diniz será assistente do MP na acusação. Ela defende os interesses das famílias das vítimas.
Como foi a chacina
Local da série de ataques em Osasco e Barueri
Nivaldo Lima/Estadão Conteúdo
Ao todo, 17 pessoas foram mortas a tiros por encapuzados armados em 13 de agosto de 2015: sendo 14 delas em Osasco e outras três em Barueri (veja no quadro abaixo).
De acordo com a Promotoria, a chacina foi cometida por agentes de segurança para vingar os assassinatos do policial militar Admilson Pereira de Oliveira, em 8 de agosto de 2015, em Osasco e do guarda-civil Jeferson Luiz Rodrigues da Silva, no dia 12 de agosto do mesmo ano, em Barueri.
Quatro agentes, três policiais militares e um guarda-civil municipal, estão presos atualmente por esses 17 assassinatos. Todos os acusados negam os crimes.
Segundo o Ministério Público, Cristilder e Manhanhã se uniram ao grupo de milicianos para cometer os ataques à época que trabalhavam, respectivamente, no 20º Batalhão da PM e na Guarda Civil Municipal de Barueri.
As vítimas foram escolhidas aleatoriamente, segundo a denúncia do MP. Algumas tinham ficha criminal. Estavam em ruas e em bares. Dezesseis eram do sexo masculino e uma do feminino, uma adolescente de 15 anos (veja aqui e abaixo quem são).
Veja acima como foi a chacina que deixou 17 mortos em Osasco e Barueri em 2015
G1 Arte
Condenações anteriores
Em 2017, os então policiais militares Fabrício Eleutério, soldado das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), e Thiago Henklain, do 42º BPM, foram condenados a penas de 255 e 247 anos de reclusão em regime fechado, respectivamente. Eles foram acusados de matar 17 pessoas e ferir outras sete no dia 13 de agosto de 2015 em Osasco e Barueri.
Nesse mesmo júri de 2017, Manhanhã também foi julgado e condenado. Recebeu pena de 100 anos e 10 meses por participação em 11 mortes e duas tentativas de assassinatos. Segundo o TJ, essa punição foi reduzida depois para 94 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão.
Cristilder foi julgado sozinho em 2018. Havia sido condenado a 119 anos, 4 meses e 4 dias de prisão por 12 das mortes e quatro tentativas de assassinatos.
Apesar de receberem penas que ultrapassam o período de um século de prisão, pela lei brasileira nenhum deles poderá ficar mais de 30 anos preso.
Em 2019, depois da condenação dos seus agentes, a Polícia Militar expulsou os três PMs da corporação. Manhanhã continua na GCM.
Todos os quatro acusados da maior chacina do estado de São Paulo permanecem presos. O G1 não conseguiu localizar as defesas de Eleutério e Henklein para comentarem o assunto até a última atualização desta reportagem.
Famílias
Parentes do ex-PM e do GCM compareceram na frente do fórum de Osasco para pedir a absolvição dos réus na segunda-feira. Já os familiares das vítimas da chacina também foram ao local para pedir a condenação dos acusados.
“Não tem um dia que eu não lembre do meu filho. Ele era bonzinho”, disse Aparecida Gomes da Silva Assunção, mãe do mecânico Leandro Pereira Assunção, uma das vítimas mortas. “Os filhos sentem muito a falta do pai. Eles choram. Ficou o vazio, a tristeza, a saudade. Então eles têm que pagar pelo que fizeram. Eles destruíram muitas famílias”.
Familiares das vítimas da chacina de 2015 protestam com cartazes em frente ao Fórum de Osasco
Filippo Mancuso/TV Globo

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