BCN 

Bairro Marapé, em Santos, luta para não deixar o samba morrer

Compartilhar


Com a pandemia, clubes e agremiações do tradicional bairro santista ainda tentam saídas para a crise. Roda de samba na União Imperial, que antes da pandemia mantinha um público cativo
Arquivo Pessoal/Luiz Alberto Martins
Em pleno carnaval, o Marapé, pela primeira vez, ficou silencioso. Um dos mais tradicionais redutos do samba santista, o bairro vive o desafio, imposto pela pandemia da Covid-19, de manter vivos três grandes símbolos da cultura local, o clube Ouro Verde e as escolas União Imperial e Real Mocidade. Há décadas, eles são os defensores da música popular, na comunidade e além.
Desde o início da quarentena, em 2020, a preocupação era não deixar que o samba fosse afetado pela pandemia. O presidente da União Imperial, Luiz Alberto Martins, conhecido como Pelé, não esconde as dificuldades e a enorme preocupação com o futuro da escola. “Além de não poder fazer eventos, as contas ficaram atrasadas”, admite.
Com a popularidade das transmissões pela internet, Pelé viu uma oportunidade de reverter o jogo e manter viva a escola de samba, várias vezes campeã do Carnaval de Santos. “Continuamos com as feijoadas e iniciamos as lives. Essas medidas amenizaram um pouco a situação”.
Quadra da escola durante o período de quarentena: sem eventos, contas acumulam
Arquivo Pessoal/Thiago Apolinário
A União, diferente de outras escolas, tem quadra e barracão, o que gera custo mensal de R$ 6 mil por mês. Pelé diz que, apesar de não ter desfile este ano, a Secretaria de Cultura contribui com uma verba. Essa quantia ajuda, diz Pelé, mas as despesas fixas ainda preocupam bastante. “Ter um barracão tem vantagens, mas também desvantagens. Podemos fazer ensaios e cobrar por eles. Fazemos eventos constantemente, e isso ajuda bastante com as contas, mas também tem um gasto muito alto de manutenção”.
Pelé também é sócio do Ouro Verde, que, assim como a União, retomou as atividades respeitando os protocolos de segurança. O clube, localizado na Rua 9 de Julho – a uma distância de apenas algumas quadras da União Imperial – é administrado pelo vice-presidente, Osmar Asenjo Augusto Júnior, o Mazola. Famoso pela sua roda de samba, o Ouro Verde ficou fechado durante o início da pandemia, apenas fazendo lives de um bar no Centro de Santos.
Quando o Governo do Estado decretou fase verde, o clube foi aberto com 30% de ocupação total, menos que o permitido, em razão dos frequentadores de mais idade. Mazola explica que os filhos e netos dos que tinham costume de frequentar a casa não estão mantendo a tradição. De cerca de 400 sócios, sobraram menos de 40. O maior lucro, agora, vem do bar, que é arrendado e funciona aos sábados.
Sede do Ouro Verde: rodas de samba aos sábados foram reduzidas de três para uma
Arquivo Pessoal/Thiago Apolinário
No carnaval, o Ouro Verde costuma fazer um bloco de rua. A prefeitura cede o carro de som, diz Mazola. Todo o resto é pago com a venda de camisetas ou doações de comerciantes. Mesmo com a vacina, foi descartada a volta do bloco este ano. As rodas de samba no sábado eram três, mas depois de uma reunião, o clube e o dono do bar chegaram a um consenso de que seria melhor fazer apenas uma só, das 17h às 20h, mais uma vez pensando nos idosos, que são os que geralmente frequentam a casa.
Fernando Osório, vice-presidente da Real Mocidade Santista, afirma que a escola teve bastante dificuldade com as despesas fixas, como água, luz e o aluguel da sede e do barracão. Foram necessários acordos para evitar o fechamento. Mesmo assim, algumas contas estão sendo pagas com muita dificuldade. A renda da escola vinha de eventos em parceria com a Associação Atlética dos Portuários. “Aos sábados, temos as lives de roda de samba e a venda de refeições por delivery. Também temos as mensalidades e a venda de roupas da escola”, explica Osório.
Agora, com os novos decretos do governo, as sedes e clubes reabrem com 40% de sua capacidade total, e a música popular no Marapé consegue se manter viva. A esperança dos dirigentes é de que, com a vacina, a pandemia esteja no fim, e o ritmo da vida normal retorne às rodas de samba santistas.
* Sob a supervisão dos professores Eduardo Cavalcanti e Lidiane Diniz

Compartilhar

You May Also Like

Deixe uma resposta