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Depois de 22 anos peixe-boi-marinho reintroduzido é visto interagindo com outro indivíduo

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Devolvidos à natureza em períodos e locais diferentes, ‘Astro’ e ‘Tupã’ se encontraram no litoral nordestino na última segunda-feira. ‘Astro’ foi o primeiro indivíduo reintroduzido pelo projeto, em 1994, junto com a fêmea ‘Lua’
Allan Oliveira/Acervo FMA
O Carnaval da Bahia e de Sergipe este ano não contou com bloquinhos e trios elétricos, mas foi agitado: na segunda-feira (15) pesquisadores registraram pela primeira vez, na divisa entre os estados, a interação de peixes-boi-marinho reintroduzidos.
A dupla é formada por “Tupã” e “Astro”, mamíferos resgatados, reabilitados e reintroduzidos em épocas e locais diferentes, mas que hoje revelam o sucesso do longo processo de conservação. “São muitos os motivos para celebrarmos esse encontro, a começar pelo fato de estarem vivos e saudáveis depois dos esforços de reabilitação. Além disso, observar a espécie em Sergipe e na Bahia é incrível, afinal, são regiões onde os peixes-boi haviam desaparecido”, explica o coordenador do Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho e diretor de pesquisa da Fundação Mamíferos Aquáticos, João Carlos Gomes Borges.
‘Astro’ ficou mais de 20 anos sem interagir com outros peixes-boi-marinho
Os machos estão sendo observados desde o início da semana e até agora permanecem juntos. “A continuidade dessa ‘parceria’ é muito incerta. O Tupã tem uma área de vida muito grande: já foi observado utilizando trechos do Rio Grande do Norte até a divisa entre Sergipe e Bahia. Mas o fato de estarem juntos já é uma conquista”, diz.
Resgatado em 1991 depois de ser encontrado, ainda filhote, encalhado na praia de Aracati (CE), Astro foi levado ao Centro Mamíferos Aquáticos/ICMBio e, após três anos, reintroduzido na região de Paripueira (AL). Na época da soltura o animal interagiu com outros peixes-boi até que, em 1998, se deslocou para o litoral de Sergipe e permaneceu sozinho. “Nós nos questionávamos quando, afinal, o Astro encontraria outro indivíduo da espécie. Há mais ou menos dez dias recebemos as primeiras informações dos dois juntos e na segunda-feira pudemos comprovar”, lembra o médico veterinário, que destaca a importância do trabalho da comunidade no monitoramento dos animais.
“No início das reintroduções nós conseguíamos monitorar todos os animais e todas as áreas delimitadas, mas alguns anos depois esse controle ficou mais desafiador. Já foram reintroduzidos aproximadamente 54 animais, que utilizam áreas do Rio Grande do Norte até a Bahia. O esforço de monitoramento ocorre de maneira integrada entre diversas instituições e a parceria direta de centenas de colaboradores. Esse olhar compartilhado de responsabilidade traz pra gente um sentimento de participação muito importante que, se não existisse, possivelmente não teríamos o sucesso que conquistamos com o projeto”, completa.
Ele é um peixe-boi que há muitos anos vive sozinho em um mesmo ambiente, sem referência de outro indivíduo. Então é muito importante para ‘Astro’ se perceber nessa condição de espécie
João explica ainda que encontrar machos convivendo no mesmo local não é tão comum, outro fator que instiga a curiosidade dos pesquisadores. “Os peixes-boi-marinho costumam ser solitários, podendo viver em grupos de até quatro indivíduos, geralmente no período reprodutivo. Quando encontramos animais em dupla costuma ser fêmea e filhote”, finaliza.
Monitoramento feito por comunidade local é extremamente importante para o sucesso do projeto
Allan Oliveira/Acervo FMA
Luta pela conservação
Não faltam motivos para comemorar o flagrante dos dois indivíduos juntos em uma região cuja espécie foi tida como desaparecida. A alegria se justifica ainda pelo fato dos animais sobreviveram à tantas pressões ambientais, principalmente aos acidentes com embarcações. “A estimativa populacional é muito pequena: acreditamos que entre Alagoas e Piauí existam somente mil indivíduos da espécie. Outro agravante é que os animais se distribuem em áreas descontinuadas, ou seja, temos regiões com total ausência dos peixes-boi”, explica.
Na tentativa de evitar a extinção da espécie foi criado, em 1994, o programa de reintrodução de peixes-boi-marinho, quando ‘Astro’ foi o primeiro reintroduzido, junto a uma fêmea batizada de ‘Lua’. “Tudo começou no anos 80, quando os peixes-boi-marinho deixaram de ocorrer nos estados do Espírito Santo, Bahia e Sergipe. Esse foi um ponto importante para percebermos o grau de ameaça dessa espécie, vítima também do encalhe”.
Peixe-boi-marinho é uma das espécies mais ameaçadas do Brasil
Desde então, inúmeros esforços de Instituições Governamentais, ONG’S, empresas e comunidades locais estão sendo aportados. “O resgate dos filhotes, com posterior reabilitação e reintrodução, são algumas ações prioritárias adotadas para a conservação da espécie. Constatar a reutilização de áreas que historicamente abrigavam os peixes-boi e a forte participação social na conservação dessa espécie são evidência de que ainda podemos reverter o cenário que esses animais se encontra, sendo uma das espécies de mamíferos aquáticos mais ameaçados do Brasil”, finaliza.

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