Groove de Marcos Valle abre o tempo no álbum 'Cinzento'

Foto: Jorge Bispo

Ritmo salva a pátria em disco gravado pelo artista carioca com repertório pautado por parcerias com Emicida, Kassin, Domenico Lancellotti, Bem Gil e Moreno Veloso.

Resenha de álbum

Título: Cinzento

Artista: Marcos Valle

Gravadora: Deck

Cotação: * * *

♪ Na foto da capa do álbum Cinzento, Marcos Valle parece rasgar o plástico que envolve o rosto jovial do artista de 76 anos. A imagem do fotógrafo Jorge Bispo simboliza a incapacidade deste cantor, compositor e músico carioca se aprisionar em ambientes e tempos nublados.

Álbum lançado em 10 de janeiro com 12 inéditas músicas de autoria de Valle, Cinzento é disco menos ensolarado do que o antecessor Sempre (2019), álbum calcado no ritmo, gravado em 2018 para o exterior.

Formatado pelo próprio Marcos Valle, com a colaboração fundamental de músicos como o baixista Alberto Continentino e o baterista Renato Massa Calmon, o groove do álbum Cinzento é no todo menos exuberante do que a batida do disco Sempre, mas nem por isso menos atraente. Contudo, no universo rítmico, não tem tempo ruim para esse compositor e músico descendente da dinastia ensolarada da Bossa Nova.

Marcos Valle canta a letra escrita por Ronaldo Bastos para 'Posto 9', tema originalmente instrumental de 2005 — Foto: Jorge Bispo / Divulgação
Marcos Valle canta a letra escrita por Ronaldo Bastos para ‘Posto 9’, tema originalmente instrumental de 2005 — Foto: Jorge Bispo / Divulgação

Em tese, Cinzento é disco sobre as nuvens que vem encobrindo o Brasil nos últimos anos. Mas o conceito se esvai à medida em que o tempo vai abrindo com os grooves e versos ouvidos ao longo das 12 músicas compostas por Valle, quase todas em 2019 e algumas com letristas de geração mais jovem.

Parceria com Domenico Lancellotti, o samba Pelo sim, pelo não – cantado por Valle com a adesão vocal de Patrícia Alví – evoca a leveza de ondas que se ergueram no mar da cidade do Rio de Janeiro (RJ) entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1960, década em que o artista surgiu associado à Bossa Nova.

Marcos Valle se afastou dessa praia a partir da segunda metade da década de 1960 ao abrir o leque rítmico da obra autoral para transitar por outras ondas musicais sem perder de vista o horizonte carioca.

Principal cenário do balanço da bossa, esse horizonte contempla o Posto 9, pedaço outrora badalado da Praia de Ipanema saudado por Ronaldo Bastos nos versos que escreveu sobre a melodia da composição intitulado justamente Posto 9, originalmente um tema sem letra gravado por Marcos Valle no álbum instrumental Jet-samba (2005). O balanço da bossa é evocado na faixa com frescor.

Emicida e Marcos Valle em estúdio na gravação da música-título 'Cinzento' — Foto: Patrícia Alvi / Divulgação
Emicida e Marcos Valle em estúdio na gravação da música-título ‘Cinzento’ — Foto: Patrícia Alvi / Divulgação

Nem tudo contagia no álbum Cinzento. Músicas como Lugares distantesSe proteja e Redescobrir – letradas por Alexandre Kassin, por Bem Gil e por Moreno Veloso, respectivamente – sinalizam que a safra autoral de Marcos Valle no disco é das menos sedutoras dos últimos álbuns, do ponto de vista melódico. O que justifica a lembrança de sambossa composto com Zélia Duncan em 2010, Rastros raros, até então inédito em disco.

Assim como no disco anterior Sempre, o balanço salva a pátria em Cinzento. O azeitado groove do tema instrumental Lamento no Rhodes – mais exteriorizado do que faz supor o título da composição de Valle – sobressai no disco ao lado de Reciclo, segunda parceria de Valle com Emicida.

A primeira, Cinzento, dá título ao álbum, traz a voz de Emicida e se destaca pela letra reflexiva em que o rapper expõe serenidade outonal ao sabor do vento e da resignação diante do fluxo ininterrupto e veloz da vida, assunto aliás de Reciclo.

Introduzida por toque soturno de piano, a gravação de Reciclo abre o disco e o tempo ao cair no suingue do refrão que embute os versos “Em tudo eu acho graça / Mesmo em meio à desgraça / Entendo e rendo graça / Que a vida ainda é de graça”.

Marcos Valle apresenta samba composto em ritmo 7/8 com letra de Jorge Vercillo — Foto: Jorge Bispo / Divulgação
Marcos Valle apresenta samba composto em ritmo 7/8 com letra de Jorge Vercillo — Foto: Jorge Bispo / Divulgação

O ritmo 7/8 do samba Só penso em jazz – letrado por Jorge Vercillo com versos quase metalinguísticos – reitera a força do balanço na obra de Valle em gravação bafejada pelo sopro do trompete de Jessé Sadoc.

Sem a influência do jazz, a canção Nada existe amplia a parceria de Marcos com o irmão Paulo Sérgio Valle – letrista dos maiores sucessos da obra do artista – com alto teor de romantismo.

No arremate do álbum Cinzento, o luminoso tema instrumental Sem palavras reitera a supremacia do ritmo no cancioneiro recente de Marcos Valle. E, quando se fala em groove, o tempo está sempre bom na obra geralmente ensolarada do criador de sambas e canções que resistem há mais de 50 verões. Fonte: G1

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