A operação dos irmãos Bolsonaro para blindar Carlos e um assessor do Planalto na CPI das ‘fake news’

Flávio e Carlos Bolsonaro.  – Foto: Reprodução/BCN

Parlamentares filhos do presidente reforçam presença do PSL em comissão, mas temem derrota que pode expor estrategistas digitais do Planalto

De um vereador do Rio de Janeiro e herdeiro presidencial, o vereador Carlos Bolsonaro, a uma pré-candidata democrata à Presidência dos Estados Unidos, Elizabeth Warren. De aliados diretos de Jair Bolsonaro (PSL), como o assessor internacional Filipe Martins e o secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, à ex-presidenta Dilma Rousseff (PT).

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito das Fake News iniciou seus trabalhos há pouco mais de um mês e demonstra que será palco de intenso embate político.

De um lado, estão deputados ligados a Bolsonaro, incluindo os dois filhos do presidente no Congresso, que tentam travar a apuração por meio do PSL —tudo isso em meio à guerra interna do partido. De outro, petistas e seus aliados que querem causar o máximo de constrangimento ao Palácio do Planalto.

“A CPMI está em um momento de inflexão sobre se ela se realizará ou não. O PSL não quer viabilizar a comissão. Parece que o partido tem medo desse tipo de investigação”, afirmou a relatora do colegiado, a deputada Lídice da Mata (PSB-BA). Até agora, nas quatro sessões em que funcionou, o PSL obstruiu os trabalhos. Na sequência, houve uma sessão cancelada e não há previsão de quando outra reunião ocorrerá.

O PSL tem 8 das 32 posições na CPMI. Uma vaga a mais que PT e MDB, individualmente. A preocupação dos governistas é pela tendência de derrota. No caso das convocatórias, que tornam obrigatória o depoimento ante a comissão, é necessária a maioria simples do colegiado.

Até o momento, 107 requerimentos de convocação, que são obrigatórios, e convites, que são voluntários, foram aprovados. Outros 96 ainda dependem de aprovação. Os últimos requerimentos que chamaram atenção são um que tenta convocar Filipe Martins e outro que quer chamar a senadora Warren.

No caso de Martins, a ideia do autor do requerimento de convocação, o deputado Rui Falcão (PT-SP), é tentar provar que ele é um dos principais membros de “uma milícia” que atua nas redes sociais a favor de Bolsonaro.

O petista se embasou em uma reportagem da revista Crusoé. Em resposta pela sua conta no Twitter, o assessor presidencial afirmou que há uma tentativa de criminalizar Bolsonaro e seus defensores, ainda conclamou os apoiadores do Governo a irem pro confronto. “Vamos pro pau!”

Os opositores também ameaçam chamar o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), que é o responsável pelas redes sociais de seu pai.

Enquanto que os governistas já apresentaram requerimentos para que Dilma Rousseff e alguns de seus antigos assessores também deponham. Já a tentativa de convocar Warren tem impacto mais simbólico.

A iniciativa é da relatora da CPI, Lídice da Mata, que deseja que a democrata explique qual é a sua proposta para desmembrar as gigantes de tecnologia (Facebook, Google, YouTube…), que ela entende serem prejudiciais à concorrência. A senadora americana publicou recentemente uma propaganda falsa no Facebook para provar que a política de publicidade deles favorece a difusão de fake news.

Filhos de Bolsonaro na CPI das ‘Fake News’
Para ajudar na blindagem do Governo, os dois filhos do presidente com assentos no parlamento foram convocados pelo PSL para a CPMI. Acostumado a operar apenas nos bastidores, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) foi o primeiro a compor o grupo.

Enquanto que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) assumiu uma das vagas nesta terça-feira. Ambos querem evitar, principalmente a convocação do irmão vereador. Ele foi o estrategista da eleição presidencial de seu pai no ano passado.

“Todos os atores envolvidos no processo eleitoral de 2018. Como o próprio presidente Bolsonaro diz que o Carlos foi o artífice da rede social dele, ele pode ser convocado”, avisou o presidente do colegiado, o senador Ângelo Coronel (PSD-BA).

Se, de um lado o PSL quer se defender, do outro, os opositores querem aproveitar o espaço para expor as feridas de uma frágil base governista e, quem sabe, trazer da CPI um processo judicial/eleitoral contra o presidente —a investigação pelo uso irregular do WhatsApp na campanha, com o envio de mensagens em massa confirmado pelo aplicativo, anda a passos lentos no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

“Eles não querem que a gente chegue em investigações que vão mostrar o submundo desse processo de propagação de ódio e fake news”, afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE).

Uma das parlamentares que tenta impedir o debate no colegiado, a deputada Carolina de Toni (PSL-SC), chamou o colegiado de CPI da Censura. “Está um circo armado para se montar um tribunal de exceção aqui para ser contra o presidente”, afirmou. Enquanto outra, Bia Kicis (PSL-DF) afirma que o desfecho dela pode ser “lamentável para a sociedade brasileira”.

Quem oficialmente não é nem de um lado nem de outro, diz estar assustado com a paralisação dos trabalhos e as seguidas tentativas de obstrução. “Fiquei absolutamente preocupado com o clima que está instalado na comissão, de disputa. Eu acho que investigar um tema como esse é de interesse de todos”, disse Elmar Nascimento, líder do DEM na Câmara.

Também deverão ser interrogados pelos parlamentares representantes do WhatsApp, do Telegram, do Facebook, Google, YouTube, Instagram e do site The Intercept, este responsável pela divulgação das notícias contrárias à Operação Lava Jato que ficaram batizadas de Vaza Jato.

A previsão é que os trabalhos sejam retomados a partir da próxima semana. Para isso, contudo, será necessário haver um acordo entre as lideranças partidárias para que a CPMI passe a funcionar normalmente. Fonte: El País

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