Jonathan Ferr, o garoto-estandarte do jazz carioca no Rock in Rio

Jonathan Ferr, que se apresenta nesta sexta no Rock in Rio. – João Victor Medeiros

“Gosto de jazz, mas também gosto de funk carioca e hip hop, então por que não posso trazer isso daí para meu jazz?”, diz músico que se apresenta neste sábado no festival

Naquela manhã, Jonathan Ferr viu a luz. Levantou-se, passou a mão no telefone e ligou para cada um dos seus amigos e conhecidos para lhes anunciar a boa nova: “A partir de agora, eu sou eu”.

Jonathan Ferr, pianista e compositor, 28 anos naquela época, ganhava bem a vida tocando para os outros. Poderíamos dizer inclusive que era razoavelmente feliz. Até aquela manhã, em que viu a si mesmo caminhando pela alameda dos sonhos partidos, como um a mais no triste batalhão dos “músicos de aluguel”. “Eu tocava como sideman de muita gente, toquei samba, rock, pop, toquei em espetáculos de teatro e todo mundo adorava… A máxima era: não dá para viver da música instrumental no Brasil.

Meus amigos diziam: ‘ foda, não tem trabalho para essa música’. Mas eu estava mesmo convencido: vou entender o que está acontecendo no mercado e, baseado nisso, vou buscar o meu lugar. Se vou subir no palco, vou ser Jonathan Ferr, não um cara que pode ser substituído facilmente… Foi uma decisão difícil. Não me arrependo, não, talvez porque estou louco…”

Começando pelo princípio: Jonathan Ferr (que não é seu verdadeiro nome) nasceu no Morro da Congonha, bairro de Madureira, na periferia do Rio. “Tem muitos artistas que saem de lá, do funk principalmente, mas também sambistas e de tudo.” Se o leitor procura um criador original, aqui o tem.

Como mostra seu primeiro modelo de referência: um indigesto pianista-pastor evangélico, ex-proprietário de um império midiático que caiu em desgraça após ser flagrado com uma prostituta num hotel de quinta categoria em Nova Orleans. “Um dia meu pai me falou que eu podia escolher um disco que quisesse para mim. Escolhi um de um bosta americano chamado Jimmy Swaggart, Sweet Anointing. Na época, essa capa mexeu comigo: aí nasceu minha vontade de ser pianista”.

Pianista porque o mundo e Jimmy Swaggart o fizeram assim, JF não parou até conseguir seu primeiro teclado, pouco importava que não fosse exatamente um Steinway Classic. “Agarrei aquele brinquedo elétrico que meu pai tinha abandonado e meu desafio era tirar as músicas de ouvido.

Tirei músicas de Antônio Carlos Jobim e muitos outros… Eu ouvia e ficava tirando e tirando, umas vezes demorava mais, outras menos, ao final ouvia uma coisa e começava a tocar, e vinham os amigos dos meus pais: ‘Olha, seu filho tem muito talento.”

Passar de Jimmy Swaggart a Tom Jobim eJohn Coltrane: a dieta musical de JF era qualquer coisa menos convencional. “Aos 15 anos o professor de música na escola colocou uma matéria chamada Estética Musical.

Ele botava um disco e comentava sobre ele. Um dia, botou A Love Supreme, do John Coltrane. Fiquei arrepiado. Aquilo era diferente de qualquer coisa… Eu sentia que gostava e, ao mesmo tempo, me perturbava.”

O tempo passou, e Ferr continua interpretando A Love Supreme nos seus shows, ainda que sua versão do tema seja substancialmente diferente do original. “Não dá para tocar aquilo da mesma maneira que o Coltrane, que eu amo demais, além do que o público aqui não vai entender.

Eu pensei: ‘Tenho que trazer uma coisa mais contemporânea, que a galera participe da festa cantando o mantra: ‘a love supreme’… e aí acontece que vem um e me diz: ‘Cara, depois de te ouvir, baixei o álbum e é maravilhoso!.”

JF é uma peça de difícil encaixe no contexto fossilizado da MPB, como demonstram seus recorrentes desencontros com o establishment do chamado “jazz brasileiro”.

“Já estão me respeitando mais, mas no início não me respeitavam, não… Falavam: ‘O que este cara faz não é jazz, não é sério, ele está achando que é o novo Robert Glasper…’ Mas eu estava e sempre estive com a certeza do que eu queria.

Então eu vou sozinho, calado aqui, caminhando. Recebi muitos nãos e continuo recebendo vários nãos, algumas portas que estão fechadas para mim eu gostaria que já estivessem abertas, mas eu sei que vão se abrir em determinado momento. Tem que dar tempo para as coisas acontecerem.”

Uma coisa está clara: JF sabe o que quer, e está disposto a qualquer sacrifício para conseguir. Sua fé em si mesmo às vezes chega a afligir. “Sobretudo sou contra a hiperintelectualização do jazz.

É por isso que eu falo de jazz urbano como uma coisa que surge em uma garagem, nas calçadas… Música da rua para a rua. Minha música é para esse cara que vive nessa realidade.

Acontece que eu gosto de jazz, de Herbie Hancock e Miles Davis, mas também gosto de funk carioca e hip hop, então por que não posso trazer isso daí para a minha vivência de jazz? Minha mensagem é: ‘Olha, o jazz não é essa coisa inacessível e chata que te disseram…”

Membro da primeira geração do afro-futurismo brasileiro, junto com as cantoras Xênia França, Larissa Luz e Doralyce, seguidor confesso do legendário Sun Ra – “Ele foi um modelo não apenas por sua música, mas também pela sua estética, suas roupas multicoloridas” –, Jonathan Ferr entende a música como “um convite urgente para uma viagem cósmica sem volta para dentro de si mesmo”.

Aos 32 anos, colhe os frutos de uma carreira repleta de obstáculos que soube superar com uma mistura de astúcia felina e paciência de formiga; algo que deve em parte a Caio, Facundo, Alex e Tânia, os membros de seu contundente novo quarteto e sua inesgotável empresária, respectivamente.

“O que eu falo para os meus músicos é o seguinte: tudo que vocês quiseram fazer nos seus trabalhos e nunca deixaram, eu quero que experimentem aqui, mas tudo, tudo… Sem medo; quanto mais louco, melhor.”

Na lembrança, sua recente participação no Locomotiva Festival de Piracicaba (SP). “Tocamos depois do Francisco, el Hombre… eu falei: ‘Que vamos fazer depois dessa galera?’ Porém foi maravilhoso. Teve gente que falou que foi o melhor show do festival.”

Em seu show neste sábado no Palco Favela do Rock in Rio, Ferr interpretará as peças de seu último álbum, Trilogia do Amor (Suíte Afro-Futurista). Junto a isso, a estreia de Bike, um tour de force com uma estrutura de drum & bass, cordas e sons eletrônicos. E A Love Supreme, claro. “Como artista, acho muito legal tocar meu jazz urbano no Rock in Rio porque dá uma mensagem para o mercado: ‘Venha ouvir jazz, não tenha medo, você vai gostar.” Fonte: El País

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