Japão conclui cúpula africana com alertas velados sobre a China

Primeiro-ministro japonês Shinzo Abe responde às perguntas dos jornalistas na Ticad, em 30 de agosto de 2019 em Yokohama, Japão – Foto: AFP

Os investidores estrangeiros na África devem ter cuidado para não endividar excessivamente as nações receptoras, afirmou nesta sexta-feira o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe durante uma cúpula sobre o continente africano, em uma alusão velada aos gigantescos projetos chineses na região.

“Ao aportar uma assistência à África, devemos levar em conta a carga da dívida do país que recebe esta ajuda e impedir que esse peso seja excessivo” declarou Abe na coletiva de imprensa que concluiu a Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento da África (Ticad) que reuniu mais de 50 países do continente em Yokohama, no subúrbio da capital nipônica.

A China, que já se antecipou ao Japão com sua própria conferência sobre o desenvolvimento na África, prometeu ainda mais investimentos: 60 bilhões de dólares em novos financiamentos que foram anunciados na cúpula China-África do ano passado, o dobro do comprometido na Ticad anterior, em 2016.

– Formação de especialistas –

O projeto de infraestruturas das Novas Rotas da Seda, lançado em 2013 por Pequim para unir Ásia, Europa e África à China, foi acusado de beneficiar empresas e trabalhadores chineses em detrimento das economias locais e de submeter os países receptores em uma grande dívida, além de ignorar direitos humanos e ambientais.

“Se os países associados ficarem profundamente endividados, isso afeta os esforços de todo o mundo para entrar nos mercados”, garantiu nesta quinta-feira Abe diante dos dirigentes africanos.

O porta-voz do Ministério chinês de Relações Exteriores, Geng Shuang não tardou a reagir, e, de Pequim, classificou estas advertências como “especulações não razoáveis”.

Abe tinha aproveitado a ocasião para promover os dispositivos de financiamento japoneses apoiados pelo governo que, segundo ele, dão prioridade aos investimentos “de qualidade”.

Contudo, uma nova cifra sobre o total de investimentos futuros japoneses na África não foi divulgada nesta sexta.

– ‘Recursos humanos’ –

Mas os analistas não esperam que o Japão inicie uma corrida de investimentos com a China.

Tóquio opta por se diferenciar por meio de sua vontade de acompanhar os investimentos com um “desenvolvimento dos recursos humanos”, segundo termos usados por um diplomata encarregado da Ticad, que usou a China como exemplo oposto.

Desde a criação da Ticad, em 1993, o Japão “não deixou de apoiar um desenvolvimento centrado nos seres humanos, respeitando ao mesmo tempo a iniciativa africana. A ideia de que os recursos humanos estejam no centro do desenvolvimento é resultado da experiência dos japoneses”, vangloriou-se Abe nesta sexta, respondendo a uma pergunta sobre a particularidade dos investidores japoneses ante os da China, da Europa e dos Estados Unidos.

A sétima edição da Ticad, celebrada ao longo de três dias, destacou sobretudo os investimentos do setor privado.

Foi assinado, por exemplo, um acordo preliminar entre o governo de Costa do Marfim e a gigante automotiva nipônica Toyota para instalar, no futuro, uma fábrica de montagem de veículos no país africano. Contudo, este projeto ainda não foi detalhado.

No fim do evento, durante um painel sobre a gestão de florestas – um tema que preocupa todo o planeta pelos incêndios na Amazônia – o secretário-geral do Ministério de Meio Ambiente da República Democrática do Congo foi mais direto.

“Em meu país, há insegurança, e em muitos países africanos há insegurança demais”, declarou Benjamin Toirambe. Mas “é graças, em primeiro lugar, aos investimentos privadas que os recursos florestais podem ser geridos corretamente”, opinou. Fonte: AFP

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